Kleber Mendonça Filho detalha criação de 'O Agente Secreto' e roteiro pensado para Wagner Moura
O cineasta Kleber Mendonça Filho concedeu uma entrevista reveladora sobre o processo criativo por trás de "O Agente Secreto", filme que mergulha na atmosfera de 1977 para traçar um panorama histórico e humano do Brasil. Com um roteiro especificamente concebido para o ator Wagner Moura, o longa conquistou quatro indicações ao Oscar 2026, concorrendo nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator para Wagner Moura, Melhor Filme Internacional e Melhor Elenco.
Roteiro escrito sob isolamento durante a pandemia
Em conversa com o podcast O Assunto, Kleber Mendonça Filho contou que o roteiro começou a ser desenvolvido no segundo semestre de 2020, em meio à pandemia de Covid-19. O diretor afirmou que a escolha de Wagner Moura como protagonista foi o ponto de partida fundamental para a escrita. "Eu sempre quis que esse filme fosse o filme que eu faria com Wagner. Então eu comecei a escrever pensando em Wagner", explicou Kleber. "Porque eu queria muito trabalhar com ele e ele queria trabalhar comigo, e eu gosto muito dele e ele também gosta de mim. Se você vai fazer certa coisa, você tem que realmente criar o roteiro específico para que ele."
Parte do texto foi escrita na França, na cidade de Bordeaux, onde o cineasta residiu por um ano. Durante o processo criativo, Kleber percebeu que, embora a trama se passasse na década de 70, o Brasil contemporâneo influenciava diretamente a lógica da narrativa. O uso de artefatos históricos, como jornais e fotografias, reflete a influência de sua mãe, que era historiadora e trabalhava com arquivos, trazendo uma camada adicional de autenticidade ao projeto.
Elenco diverso representa pluralidade do Brasil
A seleção do elenco, composto por mais de 60 personagens, foi um processo minucioso e cuidadoso. O diretor descreveu um método visual utilizado para a escolha dos atores: um quadro repleto de interrogações que foram sendo substituídas por fotos conforme os artistas fossem selecionados. Para Kleber, o objetivo central era representar fielmente a pluralidade do país.
"Eu acho que tem uma coisa tão incrível do reconhecimento de 'O Agente Secreto' pelos atores, que é, talvez, o aspecto mais de mais pretensão minha nesse filme: realmente tentar trazer um painel humano, um panorama humano de como eu vejo o nosso país", afirmou o cineasta. "As caras do filme são muito brasileiras no que há de mais diverso. Você tem de traços indígenas a brancos. Branco europeu, branco brasileiro, traços negros, todo tipo de corpo, todo tipo de personagem que eu acho que representa muito um painel do Brasil."
O elenco de "O Agente Secreto" mistura nomes consagrados, como Maria Fernanda Cândido e Gabriel Leone, com atores de diferentes experiências e trajetórias. Um exemplo marcante é Tânia Maria, de 78 anos, artesã potiguar que começou a atuar por acaso em 2018 no longa "Bacurau", também dirigido por Kleber Mendonça Filho. Essa combinação reforça o compromisso do filme em apresentar um retrato abrangente e autêntico da sociedade brasileira.
Reconhecimento internacional e expectativa para o Oscar
As quatro indicações ao Oscar 2026 colocam "O Agente Secreto" em destaque no cenário cinematográfico internacional, igualando o recorde de "Cidade de Deus". O Brasil bateu um recorde nacional com cinco indicações no mesmo ano, demonstrando a força e a qualidade da produção audiovisual do país. O filme recebeu investimentos públicos e privados, o que possibilitou a realização deste projeto ambicioso.
A transmissão da 98ª edição do Oscar está marcada para 15 de março, com cobertura da Globo, aumentando a expectativa sobre o desempenho brasileiro na premiação. Enquanto isso, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura celebram esta conquista, fruto de um trabalho colaborativo que começou com um roteiro escrito sob isolamento e evoluiu para uma obra que busca capturar a essência diversa e complexa do Brasil.