Jogo do Bicho na TV: 70 anos de evolução do tema na teledramaturgia brasileira
Jogo do Bicho na TV: 70 anos de evolução na dramaturgia

Jogo do Bicho na TV: 70 anos de evolução do tema na teledramaturgia brasileira

O universo do jogo do bicho se consolidou como uma das referências estéticas mais duradouras e fascinantes da teledramaturgia brasileira ao longo de sete décadas. Uma mistura poderosa de violência, corrupção, vício em apostas e Carnaval que parece encapsular o espírito de um Brasil complexo e contraditório. Mas o mundo da contravenção mudou radicalmente nos últimos tempos, e a televisão, claro, tentou acompanhar essa transformação em tempo real.

Da romantização à violência mafiosa

O bicheiro deixou de ser o apontador romântico de Amei um Bicheiro (1952) ou o malandro carismático de Senhora do Destino (2004), para se transformar no mafioso violento e implacável de superproduções contemporâneas como Os Donos do Jogo (2025). Essa trajetória cinematográfica e televisiva ganha um novo capítulo em 2026 com o lançamento de Corrida dos Bichos no Prime Video, filme que leva a contravenção para um território inédito: uma distopia futurista onde o jogo evolui para uma competição estilo Jogos Vorazes.

O fascínio que perdura

Mas por que, após 70 anos, o público continua hipnotizado pelo submundo da contravenção? Para o historiador e escritor Luiz Antônio Simas, autor do livro Maldito Invento dum Baronete: Um Breve História do Jogo do Bicho, o fascínio vai muito além da simples aposta. O jogo está entranhado na cultura das ruas e em suas contradições fundamentais.

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"O bicho dialoga com o botequim, com a esquina, com o mundo do samba e do Carnaval. Mas também dialoga com a violência, com a segurança, com as relações entre poder público e privado", explica Simas. Curiosamente, não é o mecanismo do jogo em si que atrai o público. "De cada 10 pessoas que eu conheço que amam filmes sobre o tema, nove não fazem a menor ideia de como se joga no bicho", revela o especialista.

A sedução da máfia brasileira

A atração que o público sente por séries como Os Donos do Jogo tem explicação clara: a dramaturgia brasileira encontrou no bicho a sua própria versão dos filmes de máfia. "A máfia no cinema seduz mais do que horroriza. Ao mesmo tempo em que você mostra o horror, esse horror é sedutor. As pessoas se encantam pelo ambiente em que ele está inserido", analisa Simas.

No entanto, o historiador faz um alerta importante sobre a diferença entre documento e entretenimento. Enquanto séries documentais como Vale o Escrito (Globoplay) expõem dilemas reais e teias complexas de poder, a ficção frequentemente aposta no delírio e no romance. "O grande equívoco é tratar o jogo do bicho por apenas um viés: ou restringi-lo ao crime ou romantizar a contravenção", defende.

A transformação do crime real refletida na ficção

A figura do bicheiro na televisão mudou profundamente nas últimas décadas porque o crime na vida real também se transformou. O antigo "malandro" carismático deu lugar ao bandido sofisticado, envolvido em lavagem de dinheiro em larga escala e conexões internacionais. Para Simas, as produções documentais recentes abandonaram definitivamente a visão romântica para mostrar a teia real da contravenção. "Quem comanda o jogo não é o sujeito na esquina, são as altas esferas do poder", afirma.

O fim de uma era?

Para o historiador, o jogo do bicho como conhecemos tradicionalmente está com os dias contados. O motivo é principalmente geracional: o bicho não renovou seu público ao longo dos anos. "O jogo do bicho não representa nem 15% do faturamento do complexo criminoso que envolve a contravenção atualmente. É raríssimo aparecer alguém com menos de 40 ou 50 anos jogando", observa Simas.

Essa mudança demográfica esvaziou o faturamento direto do jogo, transformando-o quase em um elemento pitoresco. "O complexo estendeu seus tentáculos para a lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas muito mais lucrativas", explica o especialista. E é justamente essa transição do "negócio de bairro" para o crime transnacional que as produções audiovisuais recentes tentam capturar com crescente sofisticação.

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Linha do tempo das representações

A evolução do tema pode ser mapeada através de produções marcantes:

  1. 1952: Amei um Bicheiro (filme) - Representação romântica inicial
  2. 1963: Boca de Ouro (filme) - Primeira abordagem mais realista
  3. 1971: Bandeira 2 (novela) - Retrato do submundo carioca
  4. 2004: Senhora do Destino (novela) - Bicheiro carismático de José Wilker
  5. 2021-2023: Doutor Castor, Lei da Selva, Vale o Escrito (séries documentais) - Abordagem realista e investigativa
  6. 2025: Os Donos do Jogo (Netflix) - Representação mafiosa contemporânea
  7. 2026: Corrida dos Bichos (Prime Video) - Visão distópica futurista

Esta trajetória revela não apenas a evolução das representações televisivas, mas também as transformações profundas na sociedade brasileira e em seu relacionamento complexo com a contravenção. O jogo do bicho na tela continua a fascinar porque, como o Brasil que retrata, é ao mesmo tempo sedutor e aterrorizante, romântico e violento, tradicional e em constante transformação.