Filme 'Moleques' retrata São Luís pré-abolição com jovens de quilombo no elenco
Filme 'Moleques' sobre São Luís pré-abolição tem jovens de quilombo

Filme 'Moleques' resgata história de São Luís pré-abolição com elenco de jovens quilombolas

O curta-metragem "Moleques", resultado de uma extensa pesquisa do historiador Roberto Pereira, será lançado publicamente na próxima sexta-feira (17), às 19h30, na Praça do Japão, localizada no bairro da Liberdade, em São Luís. A exibição gratuita promete levar ao público uma narrativa cinematográfica que reconstrói a capital maranhense poucos meses antes da abolição da escravidão.

Maltas de adolescentes como protagonistas da resistência

A obra cinematográfica, com duração de 16 minutos, retrata o ano de 1888, quando grupos conhecidos como "maltas de moleques" – formados por adolescentes escravizados, livres e libertos – dominavam as ruas da cidade. Segundo o historiador Roberto Pereira, esses jovens protagonizavam um cotidiano marcado por conflitos, resistência e expressões culturais que desafiavam as estruturas escravistas da época.

"É a história de grupos que reuniam dezenas, às vezes centenas, de crianças e adolescentes que andavam pelas ruas de São Luís no século XIX, nas últimas décadas da escravidão", explicou Pereira. "Crianças escravizadas, livres e libertas faziam correrias, arruaças e bagunças, às vezes entrando em confronto com a polícia, sendo uma grande dor de cabeça para as elites escravistas da época e também para as que vieram depois da abolição."

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Produção com recursos da Lei Paulo Gustavo e elenco quilombola

O filme foi gravado no Centro Histórico de São Luís e contou com recursos da Lei Paulo Gustavo, legislação federal criada para minimizar os impactos da pandemia de COVID-19 no setor cultural brasileiro. A produção levou aproximadamente dois meses entre as etapas de preparação e gravação, enfrentando os desafios característicos de produções realizadas fora dos grandes centros cinematográficos.

O elenco é composto inteiramente por jovens moradores do Quilombo Liberdade, que trouxeram autenticidade e conexão emocional ao projeto. O estudante Hugo Gabriel e Silva, um dos participantes, relatou que a experiência foi profundamente marcante.

"Quando eu descobri que ia fazer um filme, fiquei meio feliz, no começo ali fiquei meio tímido, mas com o passar do tempo consegui fazer minha função e atuar com as pessoas", afirmou Hugo. "A maioria ali eu conhecia, porque somos todos do mesmo bairro, alguns eu falava, outros não, mas foi muito bom ter essa proximidade e estar passando algo que foi dos nossos antepassados. Trazer essa história para as pessoas nos dias atuais é algo muito bacana."

Reconstrução histórica a partir de novos olhares

Segundo o historiador Roberto Pereira, o curta-metragem busca apresentar o passado a partir de perspectivas inovadoras, dando voz a personagens que foram historicamente silenciados. A narrativa se insere em um conjunto mais amplo de histórias de resistência da população negra durante a escravidão e no período pós-abolição.

"Essa história faz parte de um conjunto mais amplo de resistências da população negra durante a escravidão e no pós-abolição", destacou Pereira. "Essas crianças e adolescentes utilizavam os raros momentos de liberdade para se divertir, tomar banho na maré ou na chuva, correr e até se atrasar para cumprir tarefas que lhes eram impostas. Eram formas de resistência no cotidiano. Ao transformar essa história em cinema, conseguimos ampliar o alcance desse conhecimento e fazer com que mais pessoas reflitam, conheçam o passado e busquem mais informações."

O filme "Moleques" reconstrói uma São Luís marcada por profundas desigualdades sociais, mas também pela força e resiliência das camadas negras e populares. Através da linguagem cinematográfica, a produção oferece uma janela para um capítulo pouco conhecido da história maranhense, destacando as estratégias cotidianas de resistência que antecederam a abolição formal da escravidão.

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