Cidade de Deus: a trajetória até as quatro indicações históricas ao Oscar
O cinema brasileiro viveu um momento histórico nesta quinta-feira (22) quando "O agente secreto" igualou um feito que parecia imbatível: recebeu quatro indicações ao Oscar, repetindo o desempenho de "Cidade de Deus" em 2004. Mas a história por trás das indicações pioneiras do filme de Fernando Meirelles é repleta de reviravoltas e detalhes pouco conhecidos.
O início improvável da jornada oscariana
Lançado no Brasil em 2002, "Cidade de Deus" não conseguiu uma indicação na categoria de melhor filme internacional (então chamada de filme em idioma estrangeiro) no Oscar 2003. Muitos espectadores e críticos atribuíram essa ausência a uma suposta rejeição da Academia Brasileira de Cinema, mas essa versão está longe da realidade.
Na verdade, o filme foi sim selecionado pelo Brasil através da comissão responsável na época, formada por nomes como Guilherme de Almeida Prado, Walter Lima Júnior, Zita Carvalhosa e Maria do Rosario Caetano. A decisão foi unânime, conforme revelou Almeida Prado em entrevista recente ao g1.
"Eram umas cinco ou seis pessoas, no máximo. Eu lembro que o Walter Lima Júnior nem foi à reunião, porque disse que era tão óbvio o filme, que ele mandou escrito: 'eu voto no Cidade de Deus e não preciso ir à reunião porque tenho certeza que é o filme", contou o cineasta.
A reviravolta americana e as quatro indicações
O verdadeiro obstáculo veio dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Fernando Meirelles analisa que o problema estava no perfil dos votantes da categoria de filme internacional na época.
"O que eles falavam é que quem votava em filme estrangeiro era só aposentado. Só o público muito velho, que tinha disponibilidade para ir à tarde ao cinema assistir a dois filmes por dia", explicou o diretor. Segundo ele, a faixa etária mais elevada dos votantes não se identificou com o filme brasileiro.
Porém, em 2004, a produção conquistou quatro indicações inéditas para o Brasil:
- Direção (Fernando Meirelles)
- Roteiro adaptado (Bráulio Mantovani)
- Montagem (Daniel Rezende)
- Fotografia (César Charlone)
O papel crucial da Miramax e Harvey Weinstein
Um elemento fundamental para essa conquista foi o investimento da distribuidora internacional Miramax, fundada pelos irmãos Bob e Harvey Weinstein. Bráulio Mantovani, roteirista do filme, é direto ao apontar essa influência.
"Por que o Cidade de Deus conseguiu aquelas quatro indicações? Porque o Harvey Weinstein investiu", afirmou Mantovani. "Ele tinha ligado para o Fernando e dito: 'Olha, Fernando. Vou te falar uma coisa. As pessoas estão vendo o filme e estão gostando. Eu acho que vai ser indicado para melhor montagem, melhor fotografia e melhor roteiro adaptado. Você não tem chance'. Foi a única coisa que ele errou."
Paradoxalmente, a não-indicação em 2003 pode ter sido benéfica para o filme. As regras do Oscar estabelecem que um filme indicado na categoria internacional não pode retornar na edição seguinte em outras categorias. Se "Cidade de Deus" tivesse entrado na lista em 2003, não teria condições de concorrer nas quatro categorias técnicas e artísticas em 2004.
O legado que perdura duas décadas depois
Vinte anos após essas indicações históricas, o cinema brasileiro finalmente igualou o feito com "O agente secreto". O Oscar 2026 promete ser ainda mais marcante para o país, que também conquistou uma indicação com Adolpho Veloso, diretor de fotografia de "Sonhos de trem".
Fernando Meirelles reflete sobre o impacto pessoal dessa conquista: "Acabei me dando muito bem, porque acabei tendo uma indicação pessoal de melhor diretor e isso certamente ajudou a minha carreira". O diretor também destaca que ter membros votantes mais jovens nas outras categorias contribuiu para o reconhecimento do filme.
A trajetória de "Cidade de Deus" até o Oscar revela não apenas o talento da produção brasileira, mas também os complexos mecanismos por trás da maior premiação do cinema mundial. Um caminho que mistura arte, estratégia de distribuição e timing perfeito, criando um marco que inspirou gerações de cineastas brasileiros.