Diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso narra campanha intensa pelo Oscar
Adolpho Veloso descreve campanha intensa pelo Oscar

Diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso narra campanha intensa pelo Oscar

Ir à sua própria festa de aniversário sem conhecer nenhum convidado. É assim que o diretor de fotografia Adolpho Veloso descreve a experiência de fazer campanha em busca de seu primeiro Oscar, premiação na qual concorre com o filme Sonhos de Trem, da Netflix, dirigido por Clint Bentley. Paulistano de 36 anos radicado em Lisboa, Veloso tem feito há meses quase o mesmo périplo que Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, protagonista e diretor do filme O Agente Secreto, em busca de uma estatueta dourada.

Apesar de não ter o rosto estampado em capas de revistas como Moura, a experiência é parecida, ele diz. Envolve dar entrevistas quase todos os dias, em idiomas diferentes e em vários países — como esta que concedeu à BBC News Brasil em uma passagem por Londres na última semana. Há ainda uma série de almoços, jantares e sessões de perguntas e respostas após a exibição de seu filme, em geral organizadas para receber integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que escolhem os vencedores.

A votação começou na quinta-feira (26/02) e se estende até a próxima semana. Ainda dá tempo, portanto, de ampliar a campanha. A experiência, ele compara, assemelha-se à de um candidato à Presidência da República às vésperas das eleições. "A única coisa que eu não faço e político faz é comer pastel e abraçar criança, porque o resto estou fazendo tudo. É um trabalho de campo, muito mais difícil do que filmar. Fazer um filme é muito difícil, mas é minha zona de conforto", afirma.

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De São Paulo para Hollywood

Veloso é calejado por décadas na indústria audiovisual, tendo trabalhado com publicidade, videoclipes, curtas-metragens e outros formatos no Brasil. Sonhos de Trem, porém, coroa os primeiros passos de sua carreira internacional, que começou a ser desenvolvida há cerca de cinco anos. O filme acompanha um lenhador e operário no oeste dos Estados Unidos, do fim do século 19 até meados do século 20, enquanto ele ajuda a construir, com suor e sangue, o país que se conhece hoje.

Mais introspectivo, o longa-metragem tem justamente na fotografia um de seus principais méritos, segundo a crítica especializada, por fundir de forma orgânica os dramas do protagonista aos do cenário — outro personagem da película em constante transformação. O papel de Veloso foi fundamental para a estética do filme, visto que, no set de filmagens, era sua função definir elementos como enquadramentos, movimentos de câmera e iluminação da película.

Mas ele diz acreditar que é pequena sua chance no Oscar, cuja cerimônia será realizada no dia 15 de março, em Los Angeles, pois neste ano a competição está acirrada. Ele concorre com Pecadores, estrelado por Michael B. Jordan; Uma Batalha Após a Outra, aposta do ano de Leonardo DiCaprio; Marty Supreme, que pode enfim levar à premiação de Timothée Chalamet; e Frankenstein, trabalho de Guillermo Del Toro com Jacob Elordi.

"Todos têm no mínimo dez vezes mais orçamento do que a gente teve", ele diz. "A favorita é (a americana) Autumn Durald, de Pecadores. Seria histórico. A primeira mulher a ganhar um Oscar de fotografia. Foi também a primeira a fotografar um filme em Imax. Está rompendo muitas barreiras."

Mas a esperança persiste. "O que me disseram é que, se eu não fizesse nada, teria 0% de chance; se fizesse tudo o que me pedissem, teria 5%", ele diz, entre risos. "Mas, ao mesmo tempo em que é impossível chegar sem uma campanha, todo mundo está fazendo campanha. Entre todo mundo, provalmente o trabalho fale mais alto."

Entrevista detalhada sobre a campanha e o cinema

Na entrevista, Veloso comenta ainda o momento atual do cinema brasileiro, as chances de O Agente Secreto na premiação, o uso de inteligência artificial nas artes e os entroncamentos de Sonhos de Trem com a política americana. Ele destaca que a campanha pelo Oscar é essencial, mas custosa, com orçamentos que superam o do próprio filme, que foi de US$ 8 milhões, enquanto os concorrentes têm orçamentos de mais de US$ 150 milhões.

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Sobre as chances do Brasil no Oscar, Veloso é realista: "É muito difícil separar o lado torcedor do mais realista. Torço muito para que o Brasil ganhe todas as indicações, mas é difícil. Melhor filme é muito difícil, filme internacional tem grandes chances, assim como Valor Sentimental. Apesar de merecer muito, a situação do Wagner é muito complicada, porque tem um hype em cima do Timothée Chalamet."

Ele também fala sobre a fotografia de Sonhos de Trem, que é naturalista e feita com luz natural, sem interferências de pós-produção. "A gente queria dar liberdade para os atores. Não se preocupar com um monte de tripés, luzes e caminhões ao redor. Queríamos reduzir o impacto da equipe ao redor para que eles se sentissem mais naquele mundo", explica.

Além disso, Veloso aborda temas como a inteligência artificial no cinema, afirmando que "a IA está aí e vai ajudar o ser humano em muitas coisas, mas tem questões a serem discutidas, como direitos autorais". Ele acredita que, assim como na alimentação, as pessoas sempre vão preferir filmes feitos por humanos, de forma orgânica.

Momento promissor para o cinema brasileiro

Veloso atribui o bom momento do cinema brasileiro à força do país nas redes sociais e à visibilidade internacional. "A interferência que o povo brasileiro tem nas redes sociais, no Instagram da Academia, em que os posts com mais like são os de Wagner Moura e Fernanda Torres. Quem está de fora vê e pensa: esse país tem uma voz, precisamos escutar", diz.

Ele acredita que exemplos como Cidade de Deus inspiram novas gerações e podem atrair investimentos para o Brasil, similar ao que aconteceu com a Coreia do Sul. "Ajuda a discutir o quão importante é incentivar a cultura, porque a cultura está pondo o Brasil em pauta e pode trazer investimentos até para outras coisas", afirma.

Para ir além, Veloso sugere que é necessário "mais conversa, acabar com os preconceitos ao redor do investimento em cultura, mostrar quantos trabalhos isso gera, o quanto de dinheiro e retorno isso traz". Ele enfatiza que o cinema está se tornando mais inclusivo, dando voz a mais pessoas.

Por fim, quando perguntado sobre sua torcida entre Sonhos de Trem e O Agente Secreto na categoria de melhor filme, Veloso responde: "Infelizmente, acho que nenhum dos dois vai levar. Eu ficaria muito feliz pelos dois. Um por ter feito, outro por ser do Brasil. Mas é difícil." E sobre um discurso de vitória, ele brinca: "Não. Primeiro porque as chances são poucas e depois porque, como um bom torcedor de futebol, gritar gol antes da hora não pode. É zica."