Brasileira viraliza ao treinar kung fu na China e testar técnica do corpo de ferro
Brasileira viraliza com treino de kung fu na China

Já pensou em atravessar o mundo para realizar um sonho guardado há anos e ainda viralizar na internet ao vivenciar na pele uma cultura milenar completamente diferente? Foi exatamente o que aconteceu com a influenciadora Letícia Pavim, de 26 anos. A jovem, natural de Ribeirão Preto (SP), embarcou em uma jornada de 56 horas rumo a uma escola de kung fu na cidade chinesa de Zhengzhou. A imersão ocorreu no mês de abril, durante três semanas, com o objetivo de testar os limites físicos e mentais. A experiência viralizou nas redes sociais e os vídeos publicados ultrapassaram a marca de 4 milhões de visualizações. As imagens que mais chamaram a atenção do público mostram a brasileira durante o treinamento do "corpo de ferro", uma técnica que utiliza bastões para o endurecimento muscular.

Uma experiência transformadora

Letícia Pavim descreve a vivência como algo único e transformador. "Eu ainda venho absorvendo bastante sobre essa experiência, porque foram três semanas vivendo intensamente cada dia e todos os dias eram muito diferentes, então era uma coisa muito única. Fortaleceu corpo e espírito, cheguei em patamares que eu não imaginava em questão do ser, e isso foi muito transformador, ver o quanto a gente é capaz", afirmou a influenciadora.

A técnica do corpo de ferro

O impacto com os bastões pode parecer assustador, mas a técnica exige, acima de tudo, concentração. A prática não é obrigatória nos treinamentos. O aluno escolhe pedir para passar por esse nível de condicionamento. "É uma forma de aplicar o Qigong, de contrair o músculo necessário e relaxar a mente e o resto do corpo. Eu penei muito nas aulas com o bastão, mas todos os dias ia praticando para ser melhor. Nada como a constância e o tijolinho por tijolinho para chegarmos onde quisermos", explica Letícia.

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Conhecida no kung fu como Tie Bu Sha (Camisa de Ferro) ou Palma de Ferro (Tie Zhang), o 'corpo de ferro' é uma técnica milenar que busca endurecer músculos, tecidos e ossos por meio de impacto constante. A prática utiliza o Qigong, um sistema de respiração e energia onde o praticante contrai apenas a área que receberá a pancada, mantendo o restante do organismo relaxado para absorver a força de forma segura.

O chamado milenar e o preparo físico

O desejo de conhecer o país asiático acompanhava a criadora de conteúdo desde a adolescência, época em que chegou a estudar mandarim por três anos. Os planos de um intercâmbio, no entanto, foram paralisados pela pandemia e pela perda repentina do pai, vítima da Covid-19 em 2021. O sonho ressurgiu de forma inesperada meses atrás, ao assistir a um vídeo do mestre Shi Miao Hai na internet. "Eu vi um vídeo do mestre e falei: 'Meu Deus, é isso que eu preciso'. Fiquei obcecada. Estou sempre em busca de experiências que fortalecem corpo, mente e espírito, e o kung fu é isso elevado a dez potências, porque é muito um estilo de vida, vai muito além só de uma arte de combate", relembra a brasileira.

Representante da 36ª geração de uma família histórica de lutadores, o mestre comanda a escola no distrito de Dengfeng Shaolin, na província de Henan, exatamente a região onde a arte marcial foi criada há mais de 1,5 mil anos. Diante da oportunidade de treinar na fonte original, Letícia se preparou fisicamente. Durante seis meses, a jovem mudou a alimentação com acompanhamento nutricional e adotou uma rotina intensa de treinamentos no Brasil, praticando musculação e muay thai seis vezes por semana. O objetivo era criar o condicionamento necessário para absorver tudo o que a imersão cultural pudesse proporcionar.

"Eu me preparei por seis meses para estar lá. Me preparei muito porque eu queria viver aquilo da melhor forma possível. O que eu pensei: 'cara, vai ser muito difícil'. Então, eu quero chegar realmente à melhor versão para me tornar algo que eu ainda não conheço. Eu não queria só chegar e fazer de qualquer jeito. Eu queria viver tudo e sabia que ia ser desafiador, por isso me preparei muito", contou a influenciadora.

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Rotina no acampamento

Qualquer pessoa acima de 18 anos pode se matricular no acampamento, que recebe interessados de todas as partes do mundo, como Itália, Rússia, Catar e Irã. A acolhida é imediata, baseada no conceito de "Família Kung Fu", uma comunidade onde todos apoiam o desenvolvimento coletivo. A imersão na escola funciona em um formato completo, oferecendo alojamento, refeições e instrução contínua. A rotina exige dedicação integral e ocorre de segunda a sábado.

Nos dias completos, as atividades começam pontualmente às 6h, com o primeiro bloco de treinamento. Após o café da manhã, os alunos encaram a segunda etapa, das 9h às 11h, com foco em combate, técnicas de mãos vazias e manuseio de armas. Depois do almoço, o terceiro e mais exaustivo período segue das 14h30 até as 17h. Às quartas-feiras, aos sábados e domingos, os alunos possuem a tarde livre para descanso.

O grande desafio, além do cansaço físico, era a comunicação. Letícia, que tinha estudado mandarim, apagou o conhecimento do idioma por falta de prática. Como o inglês funciona como língua universal entre os estudantes, as conversas fluíam, mas a interação com os mestres exigia tecnologia. "O mestre falava e mostrava a tela do celular com o Google Tradutor. Se a pessoa não sabe falar nem o inglês e nem o mandarim, vai ser uma experiência só de ficar fazendo exercício, meio solitária e péssima, porque não vai se comunicar com ninguém", relata Letícia.

Regras rígidas e cobrança

De acordo com a influenciadora, a "Família Kung Fu" é formada por grupos dinâmicos. Como a escola recebe matrículas o tempo todo, as turmas são moldadas de acordo com as pessoas que chegam e partem a cada semana. Segundo Letícia, apesar do ambiente de suporte entre os colegas, a cultura de ensino dos instrutores chineses não alivia nas cobranças. Se a equipe técnica nota o comprometimento do estudante, as exigências são elevadas ao extremo.

Em um dos momentos mais marcantes da viagem, a turma recebeu o comando de carregar uma pessoa nas costas e dar uma volta completa nas instalações, trajeto que incluía subir e descer lances de escada. A influenciadora escolheu uma colega mais leve, com aproximadamente 40 kg, e completou o percurso. A atitude gerou uma severa bronca do treinador, que exigiu o cumprimento da regra oficial: o praticante deve transportar alguém com o mesmo peso corporal ou superior. Como correção, a brasileira precisou refazer todo o caminho carregando um adolescente chinês de 70 kg, levando o organismo à exaustão completa.

"Foi muito sofrido. Depois eu até dei uma choradinha, não de tristeza, mas somente porque o corpo sentiu muito. Mas aí a gente segue o baile, faz parte. Eles são bem severos, assim. Se eles veem que a pessoa tá treinando sério, que pode ir além, eles vão te puxar e te fazer fazer coisas que você pensava que não ia conseguir", relembra.

O preparo prévio no Brasil garantiu a sobrevivência na escola. Enquanto outros alunos sofriam lesões e precisavam de acupuntura logo nos primeiros dias, a jovem completou o período sem a necessidade de intervenção médica. "Passei três semanas ilesa. Claro que senti dor, tive roxos, mas não precisei tomar nenhum remédio. Fiz absolutamente todos os treinos e dei o melhor todos os dias", comemora.

Custos e estrutura

De acordo com Letícia, o complexo oferece a estrutura exata para o foco total no treinamento, sem luxos. Os quartos dos alojamentos são compartilhados, divididos por gênero, equipados com beliches e colchões no estilo tradicional chinês. Os valores cobrados para a imersão são fixados na moeda local e variam de acordo com o tempo de permanência, englobando aulas, comida e dormitório. A tabela parte de aproximadamente R$ 2,5 mil para uma semana e chega a cerca de R$ 28 mil para a experiência completa de seis meses. A opção pelo pacote de três semanas, somada ao valor extra do quarto de hotel nos dias iniciais, representou um investimento total em torno de R$ 6 mil para a brasileira.

Transformação interior

Para Letícia, retornar ao Brasil após o treinamento rigoroso significou trazer na bagagem uma visão de mundo transformada. Aos 26 anos e atualmente com 229 mil seguidores, a influenciadora era conhecida nas redes sociais desde 2024, quando expôs cobranças indevidas de policiais em Angola, denúncia que provocou a redução de postos de controle rodoviário no país africano. Agora, com o sucesso das artes marciais, a mensagem que ela deixa é sobre força mental e superação. Para a criadora de conteúdo, a imersão na cultura asiática prova que a determinação permite acessar vivências raras.

"Fico muito feliz que os conteúdos acabaram crescendo muito nas redes sociais. O propósito continua o mesmo desde quatro anos atrás: inspirar mulheres a viajarem por todo o mundo, quebrar os estereótipos dos países e mostrar culturas e experiências tão únicas como o Kung Fu na China. É mostrar outros caminhos e tudo o que a gente pode ter", finaliza Letícia.