Sebo em Jundiaí abriga um dos maiores acervos de colecionismo do Brasil
Se a leitura de um livro já proporciona a sensação de viajar no tempo, adentrar um sebo é um passo ainda mais concreto nessa jornada entre épocas. Por isso, para trabalhar em um dos maiores sebos do interior brasileiro, há um requisito fundamental: amar ler. Foi com esse critério que Maurício Ferreira, professor universitário, selecionou a equipe que gerencia os impressionantes mais de 200 mil livros estocados na loja.
Um sonho realizado
Localizado há 25 anos na Rua Dr. Torres Neves, 271, no Centro de Jundiaí (SP), o sebo ocupa três andares repletos de coleções diversas e verdadeiras relíquias. "Eu realizei um sonho de adolescente com o sebo", revela Maurício. A história do acervo começou quando, ainda jovem, o jundiaiense trabalhava como office boy e, em visitas a São Paulo para buscar documentos, descobriu os sebos da capital.
Como já nutria interesse por livros e mantinha o hábito de colecionar desde criança, essa descoberta na capital paulista foi transformadora. "Eu fiquei maravilhado de ver que um livro no qual eu pagaria R$ 100, no sebo eu pagava R$ 15. Na época, eu não tinha dinheiro, mas, quando entrava, eu me sentia em um museu", recorda.
O encantamento veio acompanhado de uma inquietação: a falta de um estabelecimento similar em sua cidade natal. Foi dessa carência que nasceu o grande sonho de abrir um sebo em Jundiaí, concretizado em 2002.
Um acervo monumental
Atualmente, Maurício estima que o acervo total já se aproxime de 1 milhão de itens. Entre os produtos catalogados para venda, destacam-se 200 mil livros e 100 mil gibis. As maiores relíquias incluem livros de séculos passados, notáveis pela preservação, além de outros objetos raros.
O objetivo futuro é apresentar também os mais de 3 mil brinquedos em um pavimento exclusivo para um museu da infância. Outras coleções estão planejadas para exposição na futura abertura de um antiquário. Essas grandes coleções reforçam a importância inestimável do colecionismo para a manutenção e acesso à cultura.
"Aqui é tudo concentrado em um lugar só. O sebo é isso: é fazer circular essa cultura. O sebo ensina educação financeira para os jovens aprenderem a pechinchar, apresenta os livros, incentiva a curiosidade", explica o proprietário.
Formando novos leitores
O professor universitário também expressa a felicidade de participar, mesmo que indiretamente, da formação de novos leitores. Para ele, oferecer a chance de alguém ler um livro tem um valor que transcende o financeiro.
"Eu vibro quando vejo um jovem vindo comprar, eu acho legal que as pessoas venham aqui ler. Às vezes, a pessoa vem aqui todo dia, pega ali um livro, lê um pouquinho cada dia e, quando vê, terminou de ler inteiro. Eu acho engraçado isso", compartilha Maurício. Livros com grande tiragem chegam a ser vendidos por até R$ 1 na vitrine da loja.
A mascote do sebo
Outra história curiosa é a da Neguinha, uma gata que há cinco anos é cuidada pelos funcionários e é apresentada como a "secretária" do local. A gata preta tem o costume de ficar na porta durante o dia e passear pelos telhados da vizinhança à noite, acompanhando o movimento dos clientes como uma verdadeira funcionária.
"Na verdade, foi ela quem adotou o sebo… faz uns cinco anos que ela apareceu por aqui, foi entrando e ficou com a gente. Ela cuida da loja, cada dia gosta de deitar em uma caixa diferente", conta Maurício.
A presença da Neguinha remete a uma tradição antiga: bibliotecas costumavam ter gatos para combater ratos que poderiam destruir acervos, antes da existência de ferramentas sanitárias modernas. "Ela tem tudo a ver comigo", afirma o dono, ao perceber essa conexão histórica.
Por todos esses estímulos ao conhecimento, os sebos permanecem vivos graças àqueles que não cessam de questionar o mundo e buscam sentir e tocar nas páginas e objetos que guardam essas respostas.



