Anatel remove últimos orelhões de Ribeirão Preto enquanto aposentado mantém viva memória com coleção
A decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de retirar 342 orelhões das ruas de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, marcou o fim de uma era nas telecomunicações públicas. Essa notícia, que sinaliza a remoção dos últimos telefones públicos em atividade em todo o país, ressoou profundamente com o aposentado Marcos Antônio Sian, residente na cidade. Desde 1998, ele guarda em casa um acervo extraordinário e nostálgico: aproximadamente 20 mil cartões telefônicos, que eram utilizados para realizar chamadas nesses equipamentos agora obsoletos.
Uma paixão que transcende o tempo
Para Sian, a coleção não é apenas um hobby, mas uma verdadeira paixão que perdura há décadas. "Foi meio mágico, foi paixão mesmo pelo orelhão. Momentos, cultura. É muito gratificante você ver um cartão e ler o que está escrito nele, a razão daquela figura. Isso daí é educacional, faz bem para a gente. Eu continuo até hoje [colecionando], não foi embora essa paixão", revela o aposentado. As impressões nos cartões abrangem uma vasta gama de temas, incluindo:
- Pontos turísticos no Brasil e no mundo
- Bandeiras e ilustrações variadas
- Propagandas e personalidades históricas
- Paisagens, animais e objetos do cotidiano
- Datas comemorativas e eventos especiais
Curiosamente, o mesmo celular que contribuiu para tornar o orelhão obsoleto ao longo dos anos agora auxilia Sian em sua busca por relíquias. Através de grupos no WhatsApp, ele se conecta com especialistas em caçar essas antiguidades, ampliando constantemente sua coleção. Alguns cartões, devido à sua raridade, podem alcançar valores impressionantes de até R$ 10 mil no mercado de colecionadores.
Origens de uma coleção única
O interesse de Sian pelos cartões telefônicos surgiu durante suas viagens frequentes de Ribeirão Preto para São Paulo, onde adquiria produtos para sua loja. Nas proximidades dos comércios que frequentava, observava pessoas revendendo cartões com créditos esgotados, provenientes de usuários que formavam filas nos orelhões. Naquela época, em Ribeirão Preto, as chamadas ainda eram feitas com fichas da antiga Telebrás, e a novidade dos cartões despertou ainda mais seu entusiasmo.
Com a substituição dos equipamentos de ficha pelos de cartão na virada dos anos 2000, a curiosidade inicial de Sian transformou-se em um hobby dedicado. Assim como entusiastas de selos, figurinhas e moedas, ele começou a colecionar sistematicamente os cartões telefônicos. A praça da Catedral Metropolitana de São Sebastião tornou-se um ponto de encontro para colecionadores e vendedores, onde trocavam ideias e peças. "Era muito gratificante ir num sábado de manhã. Eu ficava até de tarde conversando com os colecionadores da região que vinham para trocar e aí me despertou essa paixão que eu tenho pelo cartão até hoje", recorda Sian.
Raridades e organização meticulosa
Sian mantém sua coleção com uma organização impecável. Todos os cartões adquiridos desde o início estão guardados em pastas específicas, acompanhadas de anotações detalhadas sobre as quantidades de versões publicadas. Entre as séries mais valorizadas, destacam-se as de bandeiras dos estados brasileiros, lançadas em 1995 e 1996.
Uma das peças mais raras em seu acervo é um cartão telefônico lançado pelo Jornal do Comércio, de Recife, Pernambuco, originalmente destinado à distribuição para leitores. No entanto, a circulação foi abruptamente interrompida após dois mil exemplares, gerando uma demanda intensa entre colecionadores e especulações sobre seu desaparecimento. "O dono do jornal encomendou esses cartões para distribuir para os leitores. Ele começou a distribuir e, de repente, os colecionadores começaram a procurar. Eles queriam ter também na coleção. Eu acho que ele foi importunado com a procura do cartão no jornal, não era esse o interesse dele, era o jornal", explica Sian. Atualmente, esse item pode valer até R$ 10 mil, segundo o colecionador.
A impressão dos cartões telefônicos continuou até 2014, e hoje Sian dedica-se a completar uma série com os originais da Telebrás. Embora os encontros presenciais na praça da Catedral tenham cessado, ele permanece ativo em grupos online, utilizando seu smartphone para buscar relíquias esquecidas. "Faltam poucos, então praticamente eu encomendo para os vendedores e, às vezes, não costumam achar. Tem muito cartão que eu ainda não achei, porque ninguém consegue pegar ele", comenta.
Reflexões sobre a evolução da comunicação
A remoção dos 342 orelhões por parte da Anatel em Ribeirão Preto despertou um sentimento de saudosismo ainda mais forte no aposentado. Ele relembra que, antes da popularização dos celulares, havia um telefone público a cada 300 metros na cidade, e dificilmente estavam vazios, com filas frequentes de usuários. No entanto, Sian reflete que, apesar das mudanças tecnológicas, a essência da comunicação entre as pessoas permanece inalterada. "Era fácil você passar pelo orelhão e ter uma fila: três, quatro pessoas esperando, às vezes até mais. Era muito usado. Você imagina hoje: quase todo mundo tem um celular, até uma pessoa de baixa renda. Criou um costume de se falar no celular, mas antigamente as pessoas também se falavam de monte", pondera.
Assim, enquanto a Anatel avança com a retirada definitiva dos orelhões, símbolos de uma época passada, colecionadores como Marcos Antônio Sian garantem que a memória desses objetos e de sua cultura associada não se perca, preservando-a através de acervos cuidadosos e histórias pessoais que ecoam a transformação das telecomunicações no Brasil.