Antiga Serraria do Ibirapuera pode ser transformada em polo comercial
A concessionária Urbia, gestora do Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo, está propondo uma reforma significativa na antiga Serraria da Praça Burle Marx. O plano prevê a conversão do espaço, atualmente utilizado para lazer ao ar livre, em um polo comercial com restaurantes, lojas e uma academia. A proposta inclui a construção de uma laje fechada por vidraças no pavimento superior do galpão centenário, ampliando a área construída para acomodar as novas atividades.
Resistência de órgãos de patrimônio
Antes de ser implementado, o projeto precisa da aprovação dos órgãos de proteção do patrimônio, já que o conjunto do Ibirapuera é tombado nas esferas municipal, estadual e federal. Em janeiro, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da prefeitura emitiu um parecer contrário à reforma, alertando para uma possível descaracterização da obra original e prejuízos ao paisagismo da área.
Apesar da negativa técnica, a diretora do DPH, Marília Barbour, encaminhou a proposta para análise do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp). Ela argumentou que o plano de intervenções da concessão não deve ser visto como "algo imutável, que não possa ser revisto, desde que devidamente justificado".
Histórico e importância cultural
A Serraria é uma estrutura industrial remanescente da década de 1930, anterior à criação do parque, e servia originalmente para a conservação de bondes e marcenaria. Em 1992, o espaço foi requalificado pelo renomado paisagista Roberto Burle Marx, que integrou o galpão a uma praça com espelhos d'água, fontes e vegetação nativa em frente ao Viveiro Manequinho Lopes.
Diante da ameaça de descaracterização, paisagistas protocolaram um pedido de tombamento específico para o conjunto. Eles argumentam que o tombamento genérico do parque é insuficiente para proteger o monumento, um dos raros espaços públicos projetados por Burle Marx em São Paulo. O documento destaca a diversidade de usos da Serraria pelo público, incluindo atividades de leitura, contemplação e práticas de arte da cultura oriental focadas no equilíbrio corpo-mente.
Oposição política e ajustes no projeto
A proposta da Urbia também enfrenta resistência na Câmara Municipal. A vereadora Renata Falzoni (PSB) enviou um ofício à Secretaria de Cultura solicitando celeridade na análise do tombamento para evitar "situação de insegurança jurídica e possível dano ao patrimônio". O vereador Nabil Bonduki (PT) também se manifestou publicamente, solicitando a retirada do item da pauta do Conpresp por entender que o projeto desrespeita o patrimônio histórico, arquitetônico e paisagístico.
Após apontamentos dos órgãos de defesa do patrimônio no ano passado, a concessionária fez ajustes no projeto, substituindo o fechamento em alvenaria por painéis de vidro e reduzindo o número de pontos comerciais. No entanto, o DPH considerou que a ocupação proposta — 57% no térreo e 89% no pavimento superior — continua violando as diretrizes de ocupação máxima de 50% e 30%, respectivamente, comprometendo a fluidez visual e limitando o uso público do espaço.
Contexto das concessões
O Parque Ibirapuera foi concedido à iniciativa privada em 2020, durante a gestão do ex-prefeito Bruno Covas (PSDB). O contrato deu à Urbia o direito de explorar comercialmente a área pública durante 35 anos. A concessionária, pertencente à empresa Construcap, tem a locação de espaços para alimentação entre suas principais fontes de receita.
Nos últimos anos, os quiosques, lanchonetes e restaurantes se multiplicaram pelo parque. Outros parques da capital, como o Villa-Lobos e o Água Branca, na Zona Oeste, passaram por processos similares após concessão, com crescimento nas ações comerciais patrocinadas por grandes marcas e eventos.
A votação do projeto no Conpresp estava prevista para a reunião desta segunda-feira (23), mas foi adiada pois o conselheiro responsável ainda não havia concluído o seu relatório. O desfecho dessa discussão poderá definir o futuro de um dos ícones históricos e culturais do Parque Ibirapuera.



