Da 'Borboletas Psicodélicas' à 'Metamorfose': os nomes poéticos das ruas de São Paulo
Nomes curiosos de ruas de SP: da Borboletas Psicodélicas à Metamorfose

Da 'Borboletas Psicodélicas' à 'Metamorfose': os nomes poéticos das ruas de São Paulo

Caminhar pela Rua Borboletas Psicodélicas, estacionar o carro na Travessa dos Nomes Mágicos ou cruzar a Travessa Sonho de um Carnaval, passando pela Travessa Sem História, Sem Destino. Em São Paulo, ruas com nomes que soam como versos, títulos de músicas ou poemas fazem parte do cotidiano de quem circula pela cidade. Sem precisar ir longe, é possível encontrar endereços com denominações inusitadas espalhados por todas as regiões da capital, que completa 472 anos neste domingo (25). Mais do que curiosos, esses nomes ajudam a contar a história da cidade para além dos mapas.

Um levantamento revelador sobre a origem dos nomes

Um levantamento do g1, com base no Dicionário de Ruas, elaborado pelo Núcleo de Memória Urbana (NMU) do Arquivo Histórico Municipal (AHM), órgão consultivo da Prefeitura de São Paulo, mostra a origem de alguns desses nomes pouco comuns. A pesquisa detalha como essas denominações foram oficializadas e quais histórias culturais elas carregam.

Quando a música virou nome de rua na Zona Leste

O Jardim da Conquista, na Zona Leste, reúne um caso singular na cidade. O bairro possui 143 logradouros com nomes ligados ao universo musical. Segundo a prefeitura, as denominações foram oficializadas pela Portaria nº 882/92, de 10 de dezembro de 1992, muitas delas retiradas do Banco de Nomes da SEHAB/CASE, criado para atender à demanda de regularização de vias que antes tinham apenas numeração.

O g1 visitou o bairro e conversou com moradores. Jandira Marques da Silva do Carmo, conhecida como Tauá, de 74 anos, foi uma das que ajudaram a escolher os nomes das ruas. "Nos reunimos para decidir os nomes. Até pensamos em colocarmos nomes de flores, mas aí já tinha no [Jardim] Santa Bárbara. Foi um dia à noite. Eu, Márcia, Jeruza e Vera sentamos na mesa de casa e fomos a noite toda procurando nome de música com os discos que tínhamos. Ia ouvindo as músicas e anotando. Fizemos assembleia e todos aceitaram. Não teve briga, nada. E nos tornamos o único bairro do mundo que tem nome de música nas ruas", afirmou.

Algumas ruas dos bairros são:

  • Travessa Evidências: título de uma música de José Augusto e Paulo Sergio Valle, sucesso na voz de Chitãozinho e Xororó.
  • Travessa Estúpido Cupido: título de uma música de Celly Campello.
  • Travessa Além do Horizonte: título de uma música de Roberto Carlos.
  • Travessa Galopeira: música composta pelo flautista e violonista Mauricio Cardozo Ocampo e que ganhou grande projeção no Brasil devido a sua gravação pela dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó.
  • Travessa Tristeza do Jeca: música de Zezé Di Camargo e Luciano.
  • Travessa Sem História, Sem Destino: nome vem da música composta por Paulo Debétio e Paulinho Rezende. Antes da oficialização em 1992, a via era conhecida apenas como Viela 5.
  • Travessa Doce Presença: inspirada na canção “Doce Presença”, de Ivan Lins, a travessa substituiu a antiga Rua 23 em 1992.
  • Travessa Na Paz do Seu Sorriso: recebeu o nome de uma música interpretada por Roberto Carlos em 1979. Antes, a via era identificada como Rua 106.
  • Travessa Sonho de um Carnaval: referência direta à música de Chico Buarque. O nome anterior era Viela 30.
  • Travessa Sentimental Demais: batizada a partir da música eternizada por Altemar Dutra. Antes da mudança, era a Viela 16.
  • Travessa Paz na Terra: nome vem de outra música de Roberto Carlos, substituindo a antiga Rua 35.
  • Travessa Nega Manhosa: inspirada na composição de Herivelto Martins, a via correspondia ao primeiro trecho da antiga Rua 98.
  • Travessa Nave-Mãe: denominação retirada do Banco de Nomes da SEHAB/CASE. A travessa reúne trechos de vias que antes não possuíam um nome único, como partes da Rua 98 e das vielas 36 e 104.

Outros nomes curiosos da Zona Leste

  • Travessa Cabeça Encarnada (Itaquera): nome faz referência à ave conhecida como cabeça-encarnada ou pássaro-de-cabeça-vermelha, da família Pipridae. A escolha substituiu uma travessa que antes não tinha denominação oficial.
  • Rua Dudu (Itaquera): a rua manteve oficialmente o nome pelo qual já era conhecida popularmente.
  • Rua Palma Sola (Itaquera): recebeu o nome de um município localizado no estado de Santa Catarina, substituindo a antiga denominação popular Paissandu.
  • Rua Verão do Cometa (Itaquera): a via recebeu o nome da música “Verão do Cometa”, de Sá e Guarabira. Antes, era chamada de Rua 23.
  • Rua Reinado do Cavalo Marinho (Cidade Tiradentes): nome remete ao Cavalo Marinho, um folguedo cênico tradicional do Nordeste, especialmente dos estados da Paraíba e de Pernambuco.
  • Rua Chaveslândia (Vila Prudente): batizada com o nome de um povoado de Minas Gerais. O Dicionário de Ruas aponta que um dos primeiros moradores da região pertencia à família Chaves, que deu origem à denominação.
  • Rua Neve na Bahia (Conjunto Habitacional José Bonifácio): nome vem da música de Gilberto Gil e foi escolhido pelos próprios moradores em reunião realizada na CASE/SEHAB.
  • Rua Saudade Triste (Vila Suíça): O nome é o título de uma peça musical de autoria de Yves Schmidt.

Poemas, livros e música erudita na Zona Sul

  • Rua Borboletas Psicodélicas (Jabaquara): a denominação vem de um trecho do terceiro movimento da obra musical “Pour Martina”, para piano, do compositor Henrique Morozowicz. Outras músicas do autor nomeiam vias na capital. Na Zona Sul, tem a rua Três Episódios e Repicar dos Sinos, a Norte tem a travessa Pequenos Prelúdios, e a Zona Leste tem a rua Suíte de Natal.
  • Travessa dos Nomes Mágicos (Jabaquara): recebeu o nome do poema “Nomes Mágicos”, de Carlos Drummond de Andrade, presente no livro Fazendeiro do Ar.
  • Rua Viagem ao Céu (Sacomã): a via homenageia o livro infantil “Viagem ao Céu”, de Monteiro Lobato, publicado em 1932.
  • Rua da Música Aquática (Jardim Capelinha): inspirada na suíte orquestral barroca “Música Aquática”, de Georg Friedrich Handel, composta para acompanhar uma excursão fluvial da corte inglesa pelo rio Tâmisa.

Entre memória rural e lirismo na Zona Norte

  • Travessa Coração Entristecido (Freguesia do Ó/Nossa Senhora do Ó): o nome vem da peça musical “Coração Entristecido”, composta por Kilza Setti, para voz aguda e quarteto de cordas. A denominação foi retirada do Banco de Nomes da SEHAB/CASE e oficializada em 17 de dezembro de 1991.
  • Rua Tanque Velho (Tucuruvi): o nome remete a um antigo sítio que possuía um tanque de água utilizado como bebedouro para animais e até para banho de cavalos, em uma época em que a região era ocupada por chácaras produtoras de alimentos. Nomes anteriores foram Rua Principal e Avenida Jardim Japão (trecho).
  • Rua Sol da Meia-Noite (Jardim Maia – Tremembé): via recebeu o nome de uma espécie de crisântemo, originária do Japão e da China, conhecida pelo valor ornamental e pela variedade de cores.

Topônimos, plantas e personagens históricos na Zona Oeste

  • Praça Chá da Alegria (Vila Butantã): apesar da grafia na placa, o nome correto é Chã da Alegria, município do estado de Pernambuco. A denominação foi retirada do Banco de Nomes da prefeitura e se enquadra como topônimo, ou seja, nome de lugar.
  • Travessa Maravilha Tristeza (Conjunto Promorar Raposo Tavares): nome corresponde a uma planta balsaminácea, também conhecida como malmequer, bonina ou calêndula.
  • Rua Simpatia (Vila Madalena): de origem popular, a denominação começou a ser usada pelos próprios moradores ainda na década de 1940. O nome expressa uma qualidade atribuída à convivência local e dialoga com outras vias próximas, como Harmonia e Fidalga.
  • Rua Leão Coroado (Vila Madalena): homenageia José de Barros Lima, conhecido como Leão Coroado, personagem da Revolução Pernambucana de 1817, movimento inspirado nos ideais da Revolução Francesa.

Nota sobre CEPs ausentes

Em nota, os Correios informaram que a Travessa Coração Entristecido, na Freguesia do Ó, e a Rua Saudade Triste, na Vila Suíça, não possuem Código de Endereçamento Postal (CEP). Segundo a empresa, isso ocorre porque as vias não dispõem de lotes ou pontos de entrega que justifiquem a criação de um CEP próprio. Por esse motivo, elas não constam no Diretório Nacional de Endereços dos Correios.

Como São Paulo escolhe os nomes das ruas?

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, analisa solicitações de denominação de ruas, praças, avenidas, passarelas, viadutos e pontes na cidade. As propostas podem ser apresentadas por vereadores, outras secretarias municipais, associações de moradores ou munícipes em geral.

As vias públicas podem ser nomeadas de duas formas: por decreto municipal ou por projeto de lei. Em ambos os casos, o processo inclui a avaliação da Secretaria Municipal de Cultura, que verifica o mérito das propostas, especialmente em casos de homenagens. Essa análise considera o histórico do nome sugerido, além de possíveis impedimentos relacionados à ficha limpa ou violações de direitos humanos.

Em 2024, a pasta recebeu 198 solicitações para nomeação de logradouros, das quais 129 foram concluídas, com 77 deferimentos. Já em 2025, foram 183 solicitações para nomeação de logradouros, das quais 137 já foram concluídas, resultando em 51 deferimentos. Os demais processos permanecem em análise.

Essa rica tapeçaria de nomes não apenas embeleza a cidade, mas também preserva memórias culturais, musicais e históricas, transformando cada rua em uma página viva da história paulistana.