Londrina e sua herança modernista: como a arquitetura moldou a identidade urbana da cidade
A arquitetura de Londrina é profundamente marcada pelo movimento modernista, que começou a se estabelecer na cidade desde meados do século 20. Originado na Europa nas primeiras décadas do século passado, o modernismo encontrou no Brasil, e especialmente em Londrina, um terreno fértil para se desenvolver, impulsionado pela economia cafeeira e pela crescente necessidade de infraestrutura urbana.
As origens do modernismo em Londrina
O professor Sidnei Junior Guadanhim, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL), explica que a introdução do modernismo na cidade está diretamente ligada a decisões do poder público no final dos anos 1940. "Havia uma demanda urgente por equipamentos urbanos como hospital, rodoviária e espaços culturais. Nesse contexto, foram contratados arquitetos ligados ao movimento moderno", afirma o especialista.
Entre os profissionais que deixaram sua marca em Londrina estavam nomes de destaque como Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi. Artigas, que atuava principalmente em São Paulo e mantinha conexões com a escola carioca liderada por Lúcio Costa e associada a Oscar Niemeyer, trouxe para a cidade conceitos revolucionários como:
- Racionalidade construtiva
- Uso de novos materiais
- Ausência de ornamentos desnecessários
Obras icônicas e patrimônio cultural
Nesse período inicial, foram executadas obras que se tornariam marcos arquitetônicos da cidade. Entre elas destacam-se:
- A antiga rodoviária, hoje Museu de Arte de Londrina, tombada como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como o primeiro prédio público de arquitetura moderna do Paraná
- A Casa da Criança, atual sede da Secretaria Municipal de Cultura
- O Cine Ouro Verde
- O edifício Autolon, considerado o primeiro edifício comercial de Londrina
"São projetos de alta qualidade arquitetônica, realizados quando a cidade tinha aproximadamente 20 anos de existência", ressalta Guadanhim, destacando a importância dessas construções para a formação da identidade urbana londrinense.
Expansão e popularização do modernismo
Na década seguinte, entre 1955 e 1965, a linguagem modernista se espalhou pela cidade de maneira significativa. Pesquisas indicam que metade das casas de alvenaria construídas em Londrina nesse período apresentava elementos associados ao movimento, como:
- Grandes áreas envidraçadas
- Pilares aparentes
- Telhados invertidos
"Não eram necessariamente projetos assinados por arquitetos renomados, mas havia uma influência clara do modernismo. Era um modernismo popular que se espalhava pela cidade", comenta o professor.
A presença desses elementos se concentrou especialmente no quadrilátero central e em bairros planejados como Shangri-lá, desenvolvido com ruas curvas, áreas verdes, praças e lotes voltados para a classe média alta.
Verticalização e modernização urbana
A verticalização também avançou significativamente nesse período, com edifícios que incorporavam traços modernistas em maior escala. A professora Juliana Suzuki, do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), desenvolveu uma pesquisa de doutorado que identificou 29 prédios construídos no centro de Londrina entre 1949 e 1969.
Segundo Suzuki, o crescimento vertical não respondia apenas a necessidades urbanas práticas. "Havia um desejo claro de construir uma imagem de modernização, inspirada em centros urbanos como São Paulo", analisa a pesquisadora.
Entre os exemplos mais representativos dessa fase estão:
- O edifício Santo Antonio, localizado no início do atual Calçadão
- O Hotel Sahão, de 1950, considerado sofisticado para sua época
- O próprio Autolon, de Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi
"Essas construções utilizavam técnicas modernas avançadas, como elevadores, concreto armado e elementos de controle da luz, os chamados brise soleils", destaca Suzuki.
Permanência e transformações ao longo das décadas
Com o passar dos anos, o modernismo deixou de ser o estilo dominante, mas nunca desapareceu completamente da paisagem arquitetônica londrinense. A partir dos anos 1960, arquitetos formados em outras regiões passaram a atuar na cidade, ampliando a escala dos projetos e incorporando novas abordagens.
Mesmo com o surgimento de correntes como o pós-modernismo, que retomaram elementos históricos, os princípios modernistas continuaram presentes. "Hoje, ainda vemos casas sem telhado aparente, volumes simples e soluções arquitetônicas que têm origem nesse movimento", afirma o professor Sidnei Guadanhim.
Influência atual e releituras contemporâneas
A influência do modernismo segue visível na arquitetura contemporânea de Londrina, ainda que com adaptações significativas. Questões como clima local, materiais disponíveis e contexto urbano passaram a ter maior peso nos projetos atuais.
Esse diálogo entre passado e presente aparece claramente em novos empreendimentos lançados na cidade. Inspirados na arquitetura modernista brasileira, os residenciais Oscar e Lina, da construtora Vectra, reinterpretam elementos do movimento com soluções contemporâneas.
Roberta Costa Alves Nunes Mansano, diretora executiva da empresa, destaca que a arquitetura modernista faz parte da história de Londrina e ajudou a construir a identidade urbana da cidade. "Ao buscar essa referência para os empreendimentos na Nova Prochet, retomamos princípios como funcionalidade, integração dos espaços e racionalidade construtiva, adaptados às demandas atuais", explica.
"A proposta foi estabelecer uma conexão significativa entre passado e presente, com soluções arquitetônicas alinhadas ao modo de viver contemporâneo", complementa a executiva.
Preservação e difusão do legado modernista
Além dos próprios edifícios, a construtora responsável pelos projetos criou uma galeria na Central de Decorados para apresentar a história e a importância do modernismo no Brasil, com referências a obras e arquitetos que marcaram o período.
A galeria e os apartamentos decorados dos empreendimentos Oscar e Lina estão abertos ao público na sede da Vectra, localizada na Avenida Adhemar Pereira de Barros, nº 811, no Jardim Bela Suíça. A visitação é gratuita e permite conhecer de perto como conceitos modernistas foram incorporados aos projetos atuais e adaptados às demandas contemporâneas.
Interessados em arquitetura e história urbana podem visitar o espaço para conferir a exposição e os empreendimentos, compreendendo melhor como o movimento modernista continua a influenciar e dialogar com o desenvolvimento arquitetônico de Londrina.



