Tamanduá-bandeira é flagrado nadando em rio de Miguelópolis, SP; veja o registro raro
Tamanduá-bandeira nada em rio de SP; cena é considerada incomum

Tamanduá-bandeira é flagrado nadando em rio no interior de São Paulo; assista

Navegar pelas águas do Rio Grande, em Miguelópolis, no interior de São Paulo, é uma atividade corriqueira para o guia de pesca Italo Tadeu Sousa. Com três anos de experiência na região, ele já presenciou diversas cenas da natureza, mas nada se comparou ao que encontrou ao final de um dia de trabalho, enquanto retornava à sua pousada. De repente, avistou um tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) nadando no meio do rio, uma imagem que capturou em vídeo e compartilhou.

"Foi algo inesperado. Eu estava trabalhando e, por volta das 17h30, me preparei para vir embora quando me deparei com algo diferente dentro d'água. Então me aproximei para averiguar o que era e foi uma surpresa inacreditável: era um tamanduá-bandeira", contou Italo, ainda impressionado com o registro.

Apesar de sua vivência na região e do contato diário com o ambiente aquático, o guia nunca havia testemunhado um animal silvestre nadando naquele trecho específico. "Eu não sei exatamente de onde ele veio, mas aparentemente ele estava ali com o objetivo de atravessar para o lado da mata. Eu fiquei admirado ao ver a cena, mas ao mesmo tempo fiquei com dó por não poder ajudá-lo. Deu para perceber que ele estava tentando subir contra a represa, porém não conseguiu e desceu rio abaixo por causa da água corrente", relatou.

Após o avistamento, o animal não foi mais localizado nas proximidades. Italo acredita que o tamanduá tenha conseguido concluir a travessia e alcançado a margem em segurança, superando os desafios impostos pela correnteza.

Comportamento considerado raro pelos especialistas

Ao analisar as imagens, a médica veterinária Carime Carrera Pinhatti destacou que, embora a espécie possua habilidade na água, a cena é considerada incomum. "O tamanduá-bandeira gosta muito de se banhar em córregos, beira de rios e lagos, mas ver esse animal nadando não é um comportamento tão comum, não é algo que se vê com frequência", explicou.

O mamífero, que pode pesar mais de 40 quilos, é capaz de se locomover de uma margem à outra. No entanto, conforme a especialista, ele só enfrenta essa travessia em casos de extrema necessidade, já que a natação representa uma atividade desgastante para a espécie. "Travessias longas ou em rios com correnteza intensa representam um alto custo energético, especialmente se o animal já estiver debilitado, estressado ou em deslocamento forçado devido à alguma ameaça como predadores, caça, perda de habitat", detalhou Carime.

A veterinária acrescentou que é muito provável que o tamanduá tenha entrado na água após se assustar com algo no ambiente terrestre, ou estivesse fugindo de um possível predador, incluindo seres humanos ou caçadores. Outra possibilidade levantada é a busca por abrigo ou alimento na outra margem, motivada pela fragmentação do habitat natural.

Cuidados necessários em caso de avistamento

Em situações de encontro com animais silvestres, a orientação é não se aproximar para evitar assustá-los. Uma tentativa de contato próximo pode gerar estresse no bicho e até prejudicar sua travessia. A ajuda sem treinamento adequado pode colocar tanto o animal quanto as pessoas em risco, por isso o acionamento das autoridades competentes é sempre a conduta mais segura e indicada.

"Caso seja observado que o animal está ferido ou muito cansado, ou até mesmo que está se afogando, o ideal é que sejam acionados os órgãos competentes, como a Polícia Militar Ambiental, para realizar o resgate. Se a situação exigir ações mais imediatas, o resgate pode ser feito, mas com extrema cautela, pois, apesar de dóceis, eles são animais silvestres e possuem garras longas e fortes", alertou a veterinária.

Aumento nos avistamentos de tamanduás-bandeira

Não é incomum encontrar registros de tamanduás em ambientes urbanos sendo compartilhados nas redes sociais. Segundo Carime, as observações de tamanduá-bandeira têm se tornado mais frequentes devido a uma série de fatores ambientais e antrópicos. Ela cita a fragmentação do habitat como um dos principais elementos que podem explicar essas aparições.

"Com áreas naturais cada vez mais isoladas, os animais acabam atravessando estradas, rios e até áreas urbanas durante seus deslocamentos. Soma-se a isso o aumento da circulação de pessoas durante as férias, o que eleva a chance de avistamentos e registros", pontuou.

A especialista enfatiza que esses encontros não significam que os tamanduás estejam "invadindo" as cidades. "[Eles] estão utilizando caminhos que sempre fizeram parte de seu território natural, hoje cada vez mais pressionado pela ocupação humana", concluiu.

Características do tamanduá-bandeira

Conhecido também por papa-formigas, tamanduá-açu ou jurumim, o tamanduá-bandeira é o maior representante de sua família. As fêmeas, maiores que os machos, podem atingir 2 metros de comprimento, sendo que só a cauda pode medir até 90 centímetros. O nome popular se deve justamente a essa cauda grande e peluda, que lembra uma bandeira hasteada e pode ser usada como cobertor térmico.

A espécie possui ampla distribuição pela América Latina. No Brasil, ocorre em quase todos os biomas, com exceção do extremo sul, no Pampa. É considerada uma espécie vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Sua dieta consiste principalmente em formigas e cupins, mas também inclui besouros e outros invertebrados. Com hábito solitário e olfato apurado, compensa a visão limitada. Após o período reprodutivo, as fêmeas costumam carregar os filhotes nas costas, um comportamento marcante dessa fascinante espécie da fauna brasileira.