Saci da vida real exibe 'falsas asas' em comportamento raro flagrado no litoral de São Paulo
Saci exibe 'falsas asas' em comportamento raro em SP

Saci da vida real exibe 'falsas asas' em comportamento raro flagrado no litoral de São Paulo

Quando se menciona a palavra saci, a maioria dos brasileiros imediatamente pensa no icônico personagem do folclore nacional, aquele ser mítico de uma perna só e gorro vermelho. No entanto, para os observadores atentos da natureza, o termo evoca uma figura completamente diferente: uma ave de canto inconfundível e hábitos notoriamente discretos. Em Mongaguá, no litoral de São Paulo, o biólogo Leonardo Casadei conseguiu capturar um registro extraordinário desse "saci da vida real" em um momento de rara exibição comportamental.

Um encontro surpreendente na mata

O vídeo divulgado por Leonardo mostra a ave, conhecida cientificamente como Tapera naevia, deslocando-se pelo chão enquanto exibia suas penas de maneira peculiar, eriçando o topete característico. A cena impressionou não apenas pela beleza visual, mas principalmente pelo comportamento inusitado apresentado pelo animal. "Foi impressionante, porque o saci geralmente é extremamente arisco, e os encontros que eu tive com essa espécie foram mais difíceis dele se mostrar, mas ali ele estava à vontade e fazendo esse comportamento", relata Casadei, destacando a singularidade do momento.

As misteriosas 'falsas asas' e suas hipóteses

A surpresa do biólogo tem fundamento científico. O comportamento registrado ainda é pouco detalhado pela ciência e continua a intrigar ornitólogos e pesquisadores. Durante a exibição, a ave revela pares de penas pretas que normalmente permanecem ocultas sob as asas. Quando expostas, essas penas criam a ilusão de um "par de asas extra", popularmente denominadas como falsas-asas.

Ao combinar a exibição dessas penas laterais com o movimento do corpo e o topete eriçado, a ave parece estar executando uma espécie de "dança" intrigante. Na literatura científica, existem hipóteses que associam esse display comportamental à defesa de território ou à atração de parceiros para acasalamento. Contudo, a observação realizada por Leonardo no litoral paulista sugere uma terceira possibilidade fascinante: uma estratégia de caça.

No vídeo, é possível observar claramente que, durante a "dança", o saci captura e se alimenta de dois pequenos insetos. "Ali ficou nítido para mim que ele estava caçando, porque enquanto eu estava fazendo as imagens ele capturou um grilo e depois outro bichinho", explica o biólogo, levantando a hipótese de que o movimento das penas poderia ajudar a espantar as presas, facilitando sua captura.

Um mistério que persiste na natureza

Ao retornar para casa, Leonardo aprofundou suas pesquisas sobre o comportamento e, como esperava, não encontrou uma explicação definitiva na literatura científica, apenas conjecturas e suposições. "Realmente acende uma dúvida na gente. Se ele faz isso para defender o território, ele estaria fazendo isso para intimidar a gente? Eu acredito que não, pois ele estava realmente tranquilo e se alimentando", reflete o especialista, destacando que o indivíduo parecia estar sozinho, sem sinais de outros sacis na área.

Este não é o primeiro registro desse comportamento raro. Em 2020, a equipe do Terra da Gente já havia divulgado uma cena semelhante capturada no litoral do Paraná, onde outro biólogo também enfatizou a raridade do evento. O indivíduo filmado em Mongaguá é identificado como um jovem, graças às pequenas "bolinhas" amareladas presentes no topete, uma característica distintiva de filhotes e juvenis.

Viralização e curiosidade pública

Leonardo compartilhou o vídeo em suas redes sociais, e o registro rapidamente viralizou, acumulando mais de 200 mil visualizações e despertando a curiosidade de milhares de pessoas. "As pessoas são curiosas, né? Ficaram impressionadas. Muitas pessoas conhecem o canto da ave, mas não associam à espécie, ou até não sabiam desse comportamento", comenta o biólogo, divertindo-se com o fato de que alguns espectadores confundiram a ave com o personagem folclórico saci-pererê.

Características da espécie Tapera naevia

O saci (Tapera naevia) é uma ave de plumagem discreta, variando entre tons de creme, castanho e canela, medindo aproximadamente 30 centímetros de comprimento. É mais frequentemente ouvida do que vista, graças ao seu canto característico de duas notas que soa como "sa-cí", origem de seu nome popular. Também conhecido como sem-fim, peitica e matintaperê, possui uma dieta baseada em insetos e exibe um hábito reprodutivo peculiar: é uma ave nidoparasita, ou seja, deposita seus ovos no ninho de outras espécies, delegando os cuidados parentais aos "pais adotivos".

A espécie possui uma ampla distribuição geográfica, ocorrendo em todo o território brasileiro e estendendo-se desde o sul do México até o norte da Argentina. Registros como o de Leonardo Casadei reforçam a importância da observação da natureza e a constante descoberta de comportamentos enigmáticos que ainda desafiam o conhecimento científico, mantendo viva a paixão pela biodiversidade brasileira.