Comunidade ribeirinha em Roraima se transforma em guardiã das tartarugas-da-Amazônia
Ribeirinhos de Roraima protegem tartarugas-da-Amazônia

Comunidade ribeirinha em Roraima se transforma em guardiã das tartarugas-da-Amazônia

Na comunidade Sacaí, localizada no Baixo Rio Branco em Roraima, o rio é muito mais que um curso d'água. Ele é a estrada, a fonte de sustento, o provedor de alimentos e o coração pulsante da vida dos 250 ribeirinhos que ali residem. Agora, esse rio também se tornou o palco de uma transformação ambiental extraordinária, onde crianças, pescadores e lideranças comunitárias se uniram para proteger uma espécie icônica: as tartarugas-da-Amazônia.

Projeto Quelônios da Amazônia: 47 anos de dedicação

A mudança começou com as ações educativas do Projeto Quelônios da Amazônia (PQA), coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Há quase cinco décadas, o projeto atua na proteção das áreas de desova da espécie na região amazônica, com foco especial nas 16 comunidades ribeirinhas do Baixo Rio Branco.

Além do monitoramento rigoroso dos ninhos e da soltura dos filhotes, o PQA investe fortemente em ações educativas dentro das próprias comunidades, especialmente nas escolas locais. Em Sacaí, essa iniciativa aproximou os moradores da conservação, transformando uma relação antes marcada pela captura predatória em uma verdadeira parceria para a proteção da espécie.

"O que a gente vê hoje é uma comunidade muito mais consciente do valor desses animais para o equilíbrio desse riozão", explica o agricultor e pescador Josué Moreira, de 51 anos, presidente da associação comunitária de Sacaí.

Recorde de nascimentos e mudança de mentalidade

Este ano, graças à atuação do projeto, aproximadamente 150 mil tartarugas-da-Amazônia devem nascer até o fim de março nas praias do Baixo Rio Branco. O número de ovos registrados é considerado um recorde histórico para Roraima, demonstrando o sucesso das ações de conservação.

A fiscal ambiental Jéssica Góes, que atua em parceria com o Ibama no projeto, destacou que o trabalho de educação ambiental foi fundamental para mudar a percepção dos moradores. "A comunidade desconhecia o trabalho do PQA e a importância das tartarugas. Quando a gente traz essas informações, eles começam a enxergar de outra forma", afirmou.

O projeto monitora ninhos em praias ao longo do Baixo Rio Branco, onde o acesso é feito apenas por horas navegando pelo rio. A iniciativa atua contra predadores naturais e combate a principal ameaça: o tráfico de tartarugas por criminosos conhecidos como "tartarugueiros".

Educação ambiental começa pelas crianças

Grande parte dessa transformação começa com os estudantes. As equipes do projeto visitam regularmente a escola municipal Oscar Batista dos Santos, que atende alunos de diferentes idades em Sacaí. Durante as atividades, os estudantes aprendem sobre o ciclo de vida das tartarugas, seu papel ecológico e os riscos enfrentados pelos animais.

Moradora da comunidade e secretária da escola, Nericiana de Moura, de 38 anos, afirma que as atividades despertaram curiosidade entre os alunos. "Quando as crianças aprendem sobre isso na escola, elas também ajudam a conscientizar os adultos", explicou.

Para incentivar o engajamento, o projeto promoveu um concurso entre alunos, cuja premiação foi participar da soltura de filhotes nas praias monitoradas. A estudante Maria Isabela Sampaio, de 12 anos, descreveu a experiência como "mágica". "Aprendi que as tartarugas são importantes para a natureza", disse emocionada.

De caçadores a protetores: uma revolução cultural

Durante muito tempo, a captura de tartarugas e a coleta de ovos fizeram parte da cultura alimentar de muitas populações amazônicas. Mas nos últimos anos, essa realidade mudou radicalmente em Sacaí.

Josué Moreira afirma que o projeto do Ibama promoveu uma "mudança na mente" de todos na comunidade. "Antes de conhecer o projeto, a comunidade era muito predatória. Hoje posso dizer que 99% das pessoas mudaram", conta, acrescentando que: "Tartarugueiro aqui, inclusive, não é bem-vindo".

O pescador Mário Jorge Oliveira, de 47 anos, avalia que preservar as tartarugas significa também preservar a própria história da região. "Se a gente não preservar, as novas gerações não vão ver o que a gente viu. Preservando, eles vão poder admirar a natureza como ela é linda", reflete.

Resultados concretos e parcerias estratégicas

O PQA tem uma história multifacetada com foco central na conservação das tartarugas amazônicas. O projeto foi criado para proteger ninhos e filhotes, garantindo segurança durante a fase inicial de vida, e já salvou cerca de 100 milhões de filhotes no Brasil.

A região onde o PQA atua é considerada área protegida, com proibição da pesca durante o período reprodutivo. O projeto é uma iniciativa do Ibama, mas conta com parcerias importantes, incluindo a Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh) e a Companhia Independente de Policiamento Ambiental (Cipa).

Um dos resultados mais significativos é que a tartaruga-da-Amazônia está saindo da lista de animais ameaçados de extinção, graças aos esforços conjuntos entre órgãos públicos e comunidades locais.

A dona de casa Maria Francisca Moura, de 63 anos, moradora da comunidade há mais de duas décadas, resume a transformação: "A comunidade se conscientizou muito mais. Não tem mais aquela caça predatória de tartaruga como tinha antes. Hoje a gente vê as placas do projeto e ninguém quer mexer. Pelo contrário, a gente apoia".