Raia-manta usa mergulhos extremos como sistema de navegação em alto-mar
Quando a majestosa raia-manta-oceânica (Mobula birostris) decide mergulhar rumo às profundezas abissais do oceano, ultrapassando a marca impressionante de 1.200 metros, ela não está motivada por fome ou medo. Na realidade, esse comportamento extraordinário representa uma sofisticada consulta a um mapa de navegação subaquático, conforme revela um estudo pioneiro publicado na renomada revista científica Frontiers in Marine Science.
O mistério dos mergulhos na zona da meia-noite
Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada por cientistas da Universidade Murdoch na Austrália, realizou um rastreamento detalhado de 24 raias-manta em regiões da Indonésia, Peru e Nova Zelândia. Utilizando etiquetas de satélite de alta tecnologia, os especialistas registraram mais de 46 mil mergulhos ao longo do estudo.
Enquanto a maioria dos mergulhos ocorria em águas rasas, ricas em plâncton e vida marinha, os pesquisadores identificaram 79 ocasiões especiais classificadas como mergulhos extremos, onde os animais ultrapassaram a barreira dos 500 metros de profundidade. O recorde absoluto registrado foi de 1.246 metros, atingindo a chamada zona batipelágica ou zona da meia-noite, onde a luz solar não consegue penetrar.
Os cientistas propõem uma explicação fascinante para esse comportamento: Propomos que mergulhos extremos permitem que as raias-manta oceânicas levantem as propriedades da coluna d'água... para guiar a navegação e a decisão de deixar ou permanecer em uma área, conforme destacado no estudo.
Como funciona o sistema de orientação das profundezas
O que mais intrigou os pesquisadores foi o padrão distinto desses mergulhos profundos. Diferentemente dos mergulhos alimentares, que apresentam movimentos oscilatórios de sobe e desce, os mergulhos extremos seguem um perfil específico:
- Queda livre acelerada: As raias descem em alta velocidade, alcançando quase 3 metros por segundo
- Pausas estratégicas: Durante a descida e subida, realizam breves paradas como se estivessem sentindo diferentes camadas do oceano
- Ausência de alimentação: Não permanecem tempo suficiente no fundo para se alimentar
Essas observações levaram à conclusão de que os mergulhos funcionam como missões de reconhecimento. Nas profundezas, as condições de temperatura e oxigênio são mais estáveis e podem servir como referências confiáveis. Além disso, os pesquisadores acreditam que as raias estejam detectando gradientes geomagnéticos - linhas invisíveis do campo magnético terrestre que atuam como verdadeiras rotas de navegação subaquática.
Um dado crucial reforça essa teoria: frequentemente, logo após realizar um desses mergulhos profundos, as raias iniciam viagens de longa distância, percorrendo centenas de quilômetros em poucos dias. É como se descessem para calibrar seu GPS interno antes de embarcar em jornadas oceânicas extensas.
O custo fisiológico dos mergulhos extremos
Mergulhar na zona da meia-noite exige um alto preço fisiológico. Nessas profundidades, a temperatura despenca para aproximadamente 4°C, criando um ambiente hostil para animais que não possuem capacidade eficiente de reter calor corporal, diferentemente de outros gigantes marinhos como atuns ou tubarões-brancos.
Os dados coletados revelaram uma estratégia adaptativa fascinante: antes e depois dos mergulhos extremos, as raias passam longos períodos na superfície, literalmente tomando sol para aquecer seus corpos. Essa termorregulação é vital para sobreviver ao choque térmico das profundezas abissais.
Implicações para a conservação da espécie
Esta descoberta revolucionária altera profundamente as estratégias de preservação da raia-manta-oceânica, classificada como ameaçada de extinção na Lista Vermelha da IUCN. Proteger apenas os recifes de coral onde se alimentam e realizam limpezas já não é suficiente.
Em ambientes de oceano aberto, onde pontos de referência externos estão ausentes, mergulhos custosos, mas infrequentes, podem fornecer informações críticas para movimentos de longa distância, alertaram os autores do estudo.
Se as raias utilizam o fundo oceânico como mapa de navegação, atividades como mineração em águas profundas e outras perturbações desses habitats podem deixá-las literalmente perdidas no vasto azul, comprometendo suas rotas migratórias que frequentemente cruzam fronteiras internacionais.
Conhecendo a gigante dos oceanos
A raia-manta-oceânica é a maior espécie de raia do mundo, podendo alcançar até 7 metros de envergadura e pesar aproximadamente 2 toneladas. Diferente de suas parentes bentônicas, esta espécie é pelágica, vivendo em constante nado pelos oceanos tropicais e subtropicais do planeta.
Animais dóceis e desprovidos de ferrão venenoso, são filtradores que utilizam seus lobos cefálicos (as projeções semelhantes a chifres) para direcionar grandes quantidades de zooplâncton para a boca enquanto nadam. Apesar do tamanho impressionante, são altamente vulneráveis a impactos humanos.
O estudo recente confirma que esses animais são viajantes de longa distância, capazes de percorrer mais de 1.000 km em migrações transnacionais. A descoberta de que utilizam as profundezas para navegação evidencia ainda mais a complexidade de seu comportamento e a necessidade urgente de proteger não apenas as águas costeiras, mas também os corredores oceânicos por onde transitam em suas jornadas épicas.