Onça-pintada afia garras em pequizeiro na Amazônia; marcas chegam a 2 metros do chão
No silêncio da mata amazônica, um gigante desperta e se espreguiça, transformando um momento aparentemente comum em uma demonstração bruta de força e instinto selvagem. Uma câmera trap, instalada estrategicamente na Reserva Ecológica Cunhatai Porã, localizada no Mato Grosso, capturou imagens inéditas e detalhadas de uma onça-pintada (Panthera onca) afiando suas garras no tronco robusto de um pequizeiro. O registro, feito à luz do dia, impressiona pela proximidade e nitidez, oferecendo um raro vislumbre do comportamento deste majestoso felino.
Flagrante inédito revela força do predador
O vídeo mostra o felino encarando a árvore e, em um movimento vertical preciso, cravar suas garras na madeira, arrancando lascas da casca grossa como se fosse papel. Este é o primeiro flagrante desse tipo obtido pela equipe da reserva com tamanha clareza e proximidade, marcando um feito significativo para a pesquisa local. Após o registro, a equipe técnica retornou ao local para inspecionar os danos na árvore e ficou surpresa com a dimensão da "assinatura" deixada pelo animal.
As ranhuras na casca do pequi ultrapassam a altura de um dos integrantes da equipe, alcançando quase 2 metros do solo. Esta medida serve como uma prova física incontestável do porte robusto e do alcance impressionante deste predador. Além das marcas profundas no tronco, pegadas recentes foram encontradas próximas à árvore, reforçando que aquele ponto é um território ativo e frequentemente utilizado pela onça-pintada.
Comportamento vai além da simples higiene
Para um observador casual, a cena pode parecer apenas um gato gigante cuidando de sua higiene, "aparando as unhas". No entanto, a ciência revela que este comportamento, conhecido tecnicamente como arranhadura ou claw marking, desempenha um papel social crucial na vida desses animais solitários. Segundo Lucas Souza, estudante de biologia e guia da reserva, o ato serve a dois propósitos simultâneos: manutenção física e comunicação química.
"Esses arranhões não acontecem por acaso", explica Lucas. "A onça utiliza troncos de casca grossa para afiar e manter as unhas em boas condições para caça e defesa. Além disso, ao raspar a madeira, ela deixa marcas visuais profundas e também sinais químicos liberados por glândulas nas patas." O estudante detalha que a árvore funciona como um "mural de avisos" na floresta, onde as marcas indicam presença, dominância e uso da área, servindo como um registro impressionante da força e estratégia deste grande predador.
Estudos científicos corroboram a prática
Pesquisas científicas apoiam as observações de campo. Um estudo publicado no Journal of Zoology, intitulado "Marking behaviours of jaguars in a tropical rainforest of southern Mexico", detalha exatamente esse comportamento. Os pesquisadores monitoraram onças e descobriram que elas selecionam árvores específicas, geralmente as mais altas e com cascas rugosas, para maximizar a visibilidade das marcas.
O estudo aponta que as onças utilizam a marcação visual combinada com a marcação química para "falar" com outros indivíduos sem necessidade de confronto direto. O fato de as marcas estarem a 2 metros de altura não é coincidência: quanto mais alto o arranhão, maior parece ser o animal que o fez, servindo como um sinal de intimidação para possíveis rivais na floresta.
Registro simboliza sucesso na preservação
Para Iraceldo Luiz, conhecido como "Gauchinho", proprietário da Reserva Ecológica Cunhatai Porã, cada revisão nos cartões de memória das câmeras é uma expectativa cheia de surpresas. A equipe já sabia que aquele pé de pequi era frequentado pelos felinos devido a marcas antigas, mas capturar o momento exato da ação foi uma vitória celebrada.
"A gente já tinha visto, né? Inclusive é em dois lugares, dois pés de pequi que elas costumam fazer isso e eu já sabia. Falei: 'Opa, isso aqui é onça'. Daí armamos a câmera e olha aí, a surpresa", celebra Gauchinho. Ele destaca que registros assim são o maior troféu para quem trabalha na proteção da floresta, simbolizando preservação e equilíbrio ecológico.
A onça-pintada, como o maior felino das Américas e figura no topo da cadeia alimentar, serve como um indicador vital da saúde do ecossistema. Flagrantes como este, realizados em áreas protegidas, demonstram que o ambiente está saudável e em harmonia, reforçando a importância contínua dos esforços de conservação na Amazônia brasileira.