Gato-do-mato-pequeno, menor felino selvagem do Brasil, é flagrado em Porto Alegre
O menor felino selvagem do Brasil, conhecido como gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus), foi recentemente registrado em vídeo em uma área de mata na Zona Sul de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. As imagens foram capturadas por câmeras escondidas instaladas na região do Lami, monitoradas pelo projeto Felinos do Pampa, que estuda a presença e o comportamento desses animais no estado.
Características e habitat do felino
Pouco maior que um gato doméstico, o Leopardus guttulus possui um corpo que mede entre 36 e 54 centímetros, sem contar a cauda, e pesa de 1,8 a 3,5 quilos. Sua pelagem varia do amarelo-claro ao castanho, coberta por rosetas, que são manchas escuras que servem como camuflagem eficaz em seu habitat natural, que inclui a Mata Atlântica e áreas de Cerrado.
Classificado como "vulnerável" pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a população global desta espécie é estimada em apenas 6.047 indivíduos maduros, e esse número está em declínio constante. Apesar de sua aparência delicada, trata-se de um predador ágil e solitário, com excelente habilidade para escalar árvores.
Alimentação e comportamento adaptativo
Sua dieta é composta principalmente de pequenos roedores, aves e lagartos, mas o gato-do-mato-pequeno pode caçar presas maiores, como quatis e pacas, demonstrando sua versatilidade como caçador. A espécie apresenta atividade tanto noturna quanto diurna, uma flexibilidade que parece ser uma estratégia evolutiva para evitar encontros com predadores maiores, como a jaguatirica (Leopardus pardalis).
Curiosamente, onde a jaguatirica é comum, o gato-do-mato-pequeno se torna extremamente raro, indicando uma competição ou evitamento significativo. Outra característica notável é o melanismo, uma condição genética que resulta em uma pelagem totalmente preta, comum nesta espécie. Estudos revelam que indivíduos com pelagem pintada são mais ativos em noites escuras, enquanto os melânicos preferem caçar em noites de lua cheia, utilizando a escuridão de sua pelagem como vantagem sob o luar.
Ameaças à sobrevivência da espécie
A principal ameaça enfrentada pelo gato-do-mato-pequeno é a perda e fragmentação de seu habitat. A espécie já perdeu 68,2% de sua área de distribuição histórica, principalmente devido à conversão de florestas para atividades agropecuárias. Além disso, o felino sofre com diversas outras pressões:
- Atropelamentos em estradas e rodovias;
- Envenenamento por iscas de roedores utilizadas em áreas rurais;
- Transmissão de doenças por cães domésticos;
- Caça em retaliação à predação de aves domésticas.
No Sul do Brasil, um desafio adicional é a hibridação com o gato-do-mato-grande (Leopardus geoffroyi), o que ameaça a integridade genética da espécie. Pesquisadores monitoram continuamente a população para entender como ela sobrevive em ambientes alterados pela ação humana e como se adapta a eventos climáticos extremos, como enchentes, que têm se tornado mais frequentes na região.
Reconhecimento científico e conservação
O gato-do-mato-pequeno só foi reconhecido como uma espécie distinta em 2013. Por mais de um século, cientistas o consideraram uma subespécie de outro felino, mas dados moleculares provaram que sua linhagem divergiu há mais de 1,5 milhão de anos, destacando sua singularidade evolutiva.
Projetos como o Felinos do Pampa são essenciais para a conservação desta espécie, utilizando câmeras escondidas e outras técnicas de monitoramento para coletar dados sobre sua distribuição, comportamento e interações ecológicas. Esses esforços são cruciais para desenvolver estratégias de proteção que possam mitigar as ameaças e garantir a sobrevivência deste pequeno, mas importante, felino brasileiro.



