Fauna do Lago de Furnas enfrenta ameaça de espécies invasoras e degradação ambiental
Fauna de Furnas sofre com espécies invasoras e degradação

Fauna do Lago de Furnas enfrenta ameaça de espécies invasoras e degradação ambiental

O entorno do Lago de Furnas, localizado em Minas Gerais, abriga uma diversidade significativa de fauna, mas pesquisadores apontam sinais claros de empobrecimento ambiental. A biodiversidade da região é marcada por contrastes: é rica, mas fragmentada; resistente, mas sob pressão constante. Durante duas semanas, uma expedição especial percorreu o lago, revelando a dimensão, a importância econômica e as histórias de quem vive da água em torno do maior reservatório de água doce do Sudeste e um dos maiores do Brasil.

Biodiversidade em risco: entre a riqueza e a perda

Inserido na bacia do Rio Grande, o sistema de Furnas está originalmente em uma região de alta biodiversidade. A fauna aquática é muito rica, com grande diversidade de peixes, insetos, aves, anfíbios e mamíferos ligados à água, afirma o biólogo Wagner Martins Santana Sampaio, doutor pela Universidade Federal de Viçosa e responsável técnico da ONG Idesa. Em uma área de 1.440 km², o lago atinge 34 municípios e abrange dois biomas importantes: o cerrado e a Mata Atlântica, com fauna diversificada incluindo animais emblemáticos como o lobo-guará, o tamanduá-bandeira e a onça parda, além de cerca de 350 espécies de aves.

Por outro lado, algumas espécies consideradas mais sensíveis, como grandes predadores e animais que precisam de áreas extensas e preservadas, tornaram-se raras ou desapareceram localmente, como a onça-pintada e a anta. Esses bichos foram desaparecendo ao longo do tempo, por pressão de caça, perda de habitat pelo avanço da agropecuária e fragmentação das áreas naturais, explica o professor Vinícius Xavier da Silva, do Instituto de Ciências da Natureza da Universidade Federal de Alfenas. Entre os animais ainda presentes estão predadores como a jaguatirica e o jaguarundi, além de espécies como capivaras e tatus.

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Interferência humana e homogeneização da fauna

A interferência humana é o maior modificador da natureza da região. Além da própria barragem, fatores como uso desordenado do solo, desmatamento de matas ciliares, agricultura intensiva, poluição e lançamento de esgoto alteram a composição das espécies. Ainda há muitas espécies, mas o que a gente observa é uma homogeneização. Permanecem aquelas mais generalistas, menos exigentes, afirma o professor Vinícius. Espécies como o lobo-guará e o tamanduá-bandeira são vistas com menor frequência, enquanto animais mais adaptáveis, como o cachorro-do-mato e o gambá, tornaram-se mais comuns.

Outro fator de pressão é a presença de espécies exóticas invasoras, como a rã-touro e a cobra-domilho, originárias da América do Norte. São espécies oportunistas, que competem com as nativas e podem causar desequilíbrios, destaca Vinícius. Até animais domésticos, como cães e gatos, têm impacto direto sobre a fauna silvestre, especialmente sobre aves e pequenos mamíferos. A fragmentação ambiental também contribui para esse cenário, com áreas contínuas de vegetação dando lugar a pequenas manchas isoladas, o que reduz a diversidade genética e aumenta a vulnerabilidade a doenças e extinção.

Fauna aquática: mudanças drásticas e espécies exóticas

A fauna aquática passou por uma mudança significativa com a construção da hidrelétrica e a formação do reservatório. Antes, o ambiente era composto por rios com corredeiras, cachoeiras e trechos de remanso, formando uma diversidade de habitats. Com o alagamento, esse mosaico foi substituído por um grande lago, mais homogêneo. Essa simplificação do ambiente gera prejuízos para a biodiversidade, explica Wagner. A mudança afetou principalmente espécies migradoras, como grandes bagres e peixes de valor econômico, cujas rotas foram interrompidas pela barragem.

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Hoje, o lago abriga cerca de 65 espécies de peixes, das quais 14 são exóticas, uma proporção superior a 20% que acende um alerta. Esse número, por si só, já indica que uma série de impactos ambientais ocorreram, explica o professor Paulo dos Santos Pompeu, da Universidade Federal de Lavras. Peixes como a tilápia, mais adaptados a águas paradas, encontraram condições favoráveis e passaram a dominar o ambiente. Predadores de topo, como o tucunaré, intensificam o desequilíbrio ao reduzir populações de espécies nativas. A introdução desses peixes exóticos ocorre predominantemente pela ação humana, via pesca esportiva, aquicultura e descarte inadequado de peixes de aquário.

Conservação e perspectivas futuras

Os estudos apontam que a biodiversidade sofre em áreas com degradação, e o equilíbrio desse ecossistema depende diretamente das ações de conservação adotadas nos próximos anos. Apesar do cenário desafiador, ainda há áreas consideradas estratégicas, como o Parque Estadual da Serra da Boa Esperança, que mantém melhores condições ambientais e funciona como refúgio para diversos animais. Esses espaços são essenciais, mas já não representam o ambiente original completo. Mesmo ali, algumas espécies já desapareceram, pondera Vinícius.

Há também iniciativas não institucionais, como reservas particulares e projetos de ONGs que buscam proteger remanescentes de mata. No entanto, o cenário futuro preocupa. Se nada for feito, a tendência é de empobrecimento da fauna. Se houver mais cuidado e preservação, algumas espécies ainda podem se recuperar. Mas é preciso agir. O risco de desaparecimento continua alto para muitas delas, alerta o professor Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, também da Unifal. Embora o impacto da formação do lago seja irreversível, ainda há espaço para conciliar conservação e uso econômico, garantindo que o uso seja feito de forma consciente, preservando o que resta da biodiversidade.