Estudo com cobras de massinha revela por que Ilha das Cobras tem poucos predadores
Cobras de massinha mostram por que Ilha das Cobras tem poucos predadores

Estudo inovador com cobras de massinha desvenda ecologia da Ilha das Cobras

Uma pesquisa conduzida pelo Instituto Butantan utilizou um método criativo com cobras de massinha de modelar para investigar a ecologia da jararaca-ilhoa, espécie endêmica da Ilha da Queimada Grande, localizada próximo à costa entre Itanhaém e Peruíbe, no litoral de São Paulo. Conhecida popularmente como Ilha das Cobras, esta área é considerada a segunda com maior densidade populacional de serpentes no mundo, mas o estudo revelou que possui significativamente menos predadores em comparação com o continente.

Metodologia engenhosa quantifica pressão de predação

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores espalharam 100 modelos de cobras de massinha no continente e outros 100 na ilha, permitindo quantificar os ataques de aves e outros caçadores. Otavio Marques, pesquisador do Butantan, explicou que as aves são atraídas pelo visual realista das presas e deixam marcas ao atacá-las, possibilitando a contagem após dois dias de exposição.

Os resultados foram marcantes: enquanto no continente a taxa de ataques foi de aproximadamente 12%, na Ilha da Queimada Grande apenas 1% dos modelos foram atacados. Esta diferença substancial indica um relaxamento na pressão de predação, o que tem implicações profundas para a evolução da jararaca-ilhoa.

Evolução em isolamento: coragem e coloração vistosa

Marques destacou que a jararaca do continente enfrenta predadores como gaviões e gambás, enquanto na ilha essa ameaça é reduzida. Isso permitiu que a jararaca-ilhoa desenvolvesse uma coloração amarela e vistosa, que no continente seria desvantajosa por chamar atenção, mas na ilha pode evoluir livremente.

O pesquisador fez uma analogia com a teoria da evolução de Charles Darwin, sugerindo que se o naturalista tivesse visitado a Ilha da Queimada Grande e conhecido a jararaca-ilhoa, poderia ter tido insights valiosos sobre seleção natural. A menor quantidade de predadores também permite que a serpente fique exposta nas árvores para caçar aves, comportamento observado com relativa facilidade pelos cientistas.

Adaptações morfológicas e dieta especializada

O isolamento geográfico e a ausência de roedores na ilha forçaram a jararaca-ilhoa a se adaptar para caçar aves, que compõem 80% de sua dieta. Para isso, a espécie desenvolveu modificações morfológicas notáveis:

  • Pele mais fina e cauda maior para facilitar a locomoção sobre árvores
  • Coração posicionado mais próximo da cabeça, auxiliando no deslocamento vertical
  • Peçonha extremamente potente, equivalente à de quatro jararacas continentais

Eric Comin, biólogo envolvido no estudo, reforçou que a jararaca-ilhoa é considerada uma das cobras mais peçonhentas do mundo, com veneno que garante a morte imediata das aves, evitando que caiam no solo após o bote.

Abundância ameaçada: biopirataria e conservação

Apesar da alta densidade populacional – estimada em cerca de três mil cobras distribuídas em apenas 0,43 quilômetros quadrados, o que equivale a aproximadamente 50 serpentes por campo de futebol – a espécie está ameaçada de extinção devido à biopirataria. Marques alertou que animais são removidos ilegalmente da ilha, que é uma Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) com acesso restrito a atividades científicas autorizadas.

Para enfrentar essa ameaça, o Instituto Butantan mantém um projeto de conservação com serpentes em viveiro, criando uma população de segurança caso a espécie seja extinta na natureza ou sua população decline drasticamente.

Repercussão internacional e curiosidades

A Ilha da Queimada Grande ganhou notoriedade global recentemente quando o influenciador digital Jimmy Donaldson, conhecido como MrBeast, elegeu o local como o mais mortal do planeta em um ranking que incluiu uma jaula no safári africano e uma cachoeira congelada na Europa. O youtuber norte-americano passou uma noite no único habitat da jararaca-ilhoa, destacando o perigo representado por uma das espécies de serpentes mais venenosas do mundo.

Este estudo não apenas esclarece aspectos fundamentais da ecologia e evolução da jararaca-ilhoa, mas também reforça a importância da conservação desta espécie única e do frágil ecossistema insular que habita.