Sabiazinho-norte-americano retorna a Delfim Moreira após viagem de 7 mil km
Ave migratória retorna a MG após viajar 7 mil quilômetros

Pequena viajante: ave de 20 cm percorre 7 mil km e pode ter retornado ao mesmo local em MG

Enquanto humanos planejam férias, aves migratórias executam jornadas épicas meses antes do verão brasileiro. Entre essas viajantes incansáveis, uma presença especial reapareceu em Delfim Moreira, Minas Gerais: o sabiazinho-norte-americano (Catharus fuscescens).

Um ano após o primeiro registro histórico no município, pesquisadores e observadores de aves comemoraram o reencontro com a espécie. A ave pode ter viajado mais de 7 mil quilômetros desde a América do Norte para chegar à cidade mineira, demonstrando uma incrível capacidade de navegação.

O retorno do visitante alado

O biólogo e guia de observação Silvander Mendes monitorava a área desde o início do ano, quando seu colega Francisley Ribeiro detectou a chegada do viajante. "A sensação de encontrá-lo novamente é uma mistura de alegria e confirmação", relatou Silvander. "A natureza é muito mais do que a gente já sabe e entende."

Em 2025, o sabiazinho havia permanecido por 40 dias em um trecho de mata com pinheiros exóticos, alimentando-se antes de retornar ao norte. A reaparição no mesmo local levantou uma questão fascinante: seria o mesmo indivíduo?

Mistério da identidade e importância científica

Segundo Guilherme Brito, ornitólogo da UFSC, a probabilidade de ser o mesmo pássaro é alta, mas sem marcação científica não há como confirmar. "Geralmente os migrantes possuem certa fidelidade aos locais de invernada", explicou. "Esse registro mostra que a região é uma importante área de invernada para a espécie migratória."

A documentação em Delfim Moreira ganha relevância especial porque pouco se sabe sobre a vida da espécie no Brasil. Silvander agora planeja monitorar o sabiazinho para coletar dados sobre comportamento e hábitos migratórios.

Características da espécie migratória

O sabiazinho-norte-americano difere significativamente dos sabiás brasileiros:

  • Pertence ao gênero Catharus, enquanto a maioria dos sabiás brasileiros são do gênero Turdus
  • Mede aproximadamente 20 centímetros
  • Apresenta padrões pintados no peito e ventre
  • É conhecido por migrações de longa distância

A ave realiza sua jornada anual fugindo do inverno rigoroso e da escassez alimentar no hemisfério norte. Entre setembro e outubro, deixa seu território de reprodução no sul do Canadá e Estados Unidos, chegando ao Brasil até dezembro.

Desafios da observação e conservação

Embora visite a América do Sul anualmente, o sabiazinho não é observado com frequência. Brito explica que "poucos indivíduos chegam aos locais, que são geralmente matas mais fechadas". A detecção é dificultada porque a ave vocaliza pouco durante sua estadia.

Paralelamente ao sabiazinho, Silvander registrou outra espécie migratória em Delfim Moreira: o piuí-boreal (Contopus cooperi), também avistado em 2025. Esses registros consecutivos destacam a importância da região para aves migratórias.

A pesquisa contínua promete revelar mais sobre os ciclos migratórios e os hábitos desses visitantes alados, contribuindo para a conservação de espécies que conectam continentes através de voos extraordinários.