Animais se tornam heróis em missões de desminagem e detecção de doenças
Em um mundo onde a tecnologia avança a passos largos, animais treinados continuam demonstrando habilidades extraordinárias que superam até os métodos mais convencionais. Ratos-gigantes-africanos, furões e cães estão salvando vidas em diversas frentes, desde a desativação de minas terrestres até a detecção precoce de doenças graves.
Ratos-gigantes-africanos: os desminadores mais eficientes do mundo
A organização não governamental APOPO treina ratos-gigantes-africanos (Cricetomys gambianus) para detectar minas terrestres e outros resquícios explosivos de guerra. Esses animais, apelidados de "HeroRATs" (RatosHeróis), possuem uma eficiência impressionante: conseguem vasculhar uma área do tamanho de uma quadra de tênis em cerca de 20 minutos, enquanto humanos com detectores de metal levariam até quatro dias para realizar a mesma tarefa.
Segundo a dra. Cynthia Fast, que coordena o treinamento na APOPO, os ratos são perfeitos para essa missão por várias razões:
- São longevos, inteligentes e altamente treináveis
- Têm tamanho ideal: grandes o suficiente para cobrir vastas áreas, mas pequenos o bastante para caminhar sobre minas sensíveis à pressão sem acioná-las
- Ignoram sucata metálica, focando apenas nos vapores de substâncias explosivas como TNT
Quando detectam o cheiro de explosivos, os ratos arranham a superfície do solo, sinalizando aos tratadores para marcarem o local. Até agora, esses animais já limparam 120 milhões de metros quadrados de antigos campos minados em países como Angola, Azerbaijão e Camboja – uma área maior que a cidade de Paris ou cerca de 17 mil campos de futebol.
O trabalho de conscientização nas comunidades tem sido fundamental. "No início, havia muito mais ceticismo", relata Fast. "Uma das coisas que implementamos foi organizar uma partida de futebol no terreno que antes estava minado, e quando viram que confiávamos o suficiente em nossos ratos para jogar lá, as pessoas também começaram a jogar."
Furões: engenheiros naturais em túneis e dutos
Enquanto os ratos trabalham na desminagem, os furões demonstram habilidades igualmente impressionantes em missões de engenharia. James McKay, diretor da Escola Nacional de Treinamento de Furões na Inglaterra, gerencia uma equipe de mais de 40 animais que realizam trabalhos especializados.
Esses mamíferos de corpo longo e esguio são ideais para:
- Localizar bloqueios em drenos e canos
- Instalar cabos de fibra óptica em espaços confinados
- Acessar cavidades e áreas atrás de paredes falsas
"As pessoas falam sobre treinar furões. Eu acredito que suas habilidades são inatas e tudo o que fazemos é canalizá-las", explica McKay. Historicamente, os furões já eram usados há 2.500 anos para caçar animais em tocas, e até ajudaram na construção do Fermilab, laboratório de física de partículas nos Estados Unidos, onde uma furão chamada Felicia percorreu tubos de vácuo para facilitar a limpeza.
Cães: detectores de doenças com olfato extraordinário
Na área da saúde, os cães estão revolucionando a detecção precoce de doenças. A dra. Claire Guest, cofundadora da Medical Detection Dogs, explica que esses animais podem farejar condições como câncer, epilepsia, malária, Parkinson e até covid-19.
A capacidade olfativa canina é verdadeiramente extraordinária:
- Possuem 300 milhões de receptores sensoriais, contra 5 milhões nos humanos
- Conseguem detectar uma colher de chá de açúcar em duas piscinas olímpicas cheias de água
- Inspiram e exalam simultaneamente pelo nariz, maximizando a detecção de moléculas de odor
"Os cães nos ensinaram coisas que não imaginávamos antes: foi completamente revolucionário pensar que o câncer tinha cheiro. Agora, sabemos que as doenças têm, sim, um cheiro", afirma Guest.
Além dos cães biodetectores, a organização também treina cães de assistência médica que vivem com pacientes específicos. Lauren, que sofre de síndrome da taquicardia ortostática postural, tem sua vida transformada pela cadela Mabel: "Ela me alerta quando estou prestes a passar mal. Ter a Mabel mudou tudo: posso sair e me locomover sozinha… é absolutamente incrível."
O vínculo emocional que a tecnologia não substitui
Embora a automação e a robótica avancem rapidamente, esses animais continuam indispensáveis em áreas onde a tecnologia humana ainda não consegue competir. Mais do que suas habilidades técnicas, o vínculo emocional que desenvolvem com os humanos é um componente insubstituível.
Como resume Lauren sobre sua cadela de assistência: "Eu sempre escolheria a Mabel em vez de um robô, porque ela faz muito mais do que apenas alertar sobre algo. Existe também essa conexão emocional. Imagine o pior dia da sua vida, mas ter alguém sentado ao seu lado, fazendo você se sentir melhor."
De ratos desminando campos perigosos a cães detectando doenças antes mesmo dos sintomas aparecerem, esses animais provam que, às vezes, as soluções mais eficazes vêm da natureza – e da parceria entre espécies.