Universidade do Paraná transforma abelhas nativas em pets de baixa manutenção
Ter abelhas em casa como animais de estimação está se tornando uma realidade acessível no Paraná. Com baixo custo e pouca exigência de cuidados diários, as espécies nativas sem ferrão estão sendo promovidas como uma alternativa sustentável e educativa para pessoas de todas as idades.
Projeto conservacionista da UEM
Em Umuarama, noroeste do Paraná, o Campus Regional da Universidade Estadual de Maringá (UEM) desenvolve um projeto há mais de três anos para estimular a criação de abelhas nativas. Valdir Zucareli, professor responsável pelos meliponários da instituição, explica que a iniciativa tem como principal objetivo a conservação de espécies ameaçadas de extinção.
"As abelhas sem ferrão são todas nativas do Brasil, existem aqui há milênios e são adaptadas à nossa fauna e flora. Criá-las em casa é uma atividade conservacionista", afirma Zucareli, que atua no Laboratório de Estudos em Botânica Aplicada e Sustentabilidade (Lebas).
Características das abelhas sem ferrão
Pertencentes à tribo Meliponinos, essas abelhas são completamente inofensivas e dóceis. Diferentemente das abelhas com ferrão do gênero Apis (criadas em apiários para produção em larga escala), as espécies nativas:
- Não possuem ferrão funcional
- São cruciais para polinização da flora nativa
- Produzem mel com alto valor medicinal e gastronômico
- Não exigem licença ambiental para pequenas criações
Na região norte e noroeste do Paraná, as espécies mais comuns são Jataí (considerada ideal para iniciantes), Mandaçaias, Mirins e Mandaguaris – esta última inclusive deu nome a uma cidade da região devido à sua incidência.
Vantagens como pets domésticos
Zucareli destaca que as abelhas sem ferrão são pets ideais para quem tem rotina corrida:
- Não oferecem riscos à família
- Exigem poucas despesas de manutenção
- Não precisam ser levadas para passear
- Não requerem alimentação especial
- Podem ser observadas em qualquer momento do dia
"É um pet que você consegue ter em casa mesmo tendo uma rotina muito corrida, pois não dá trabalho como outros animais", explica o especialista.
Benefícios educacionais e terapêuticos
A criação de abelhas nativas oferece múltiplos benefícios além do lazer:
Para crianças, trabalha conceitos de sociedade, seres vivos, sustentabilidade e conservação ambiental. Para idosos, funciona como terapia ocupacional que melhora concentração, foco e contato com a natureza sem riscos à saúde.
Casos de sucesso na região
Vinicius dos Santos Leite da Silva, de 12 anos, cuida de cinco colmeias (quatro de Jataí e uma de Mandaçaia) e desenvolveu uma rotina diária de observação. "Eu gosto muito de mexer com as abelhas. É muito prazeroso ver como as bichinhas estão se desenvolvendo", conta o garoto, que já identificou até a rainha de uma colmeia.
Soraia Santos de Liro Guirão, de 55 anos, encontrou nas abelhas a solução perfeita para seu amor por animais com pouco tempo disponível. "Eu converso com elas do mesmo jeito e elas me ocupam menos tempo e preocupação. Amo acordar e vê-las saindo para buscar alimento", relata a auxiliar operacional da UEM.
Cuidados necessários
Apesar da baixa manutenção, as abelhas sem ferrão exigem alguns cuidados específicos:
- Devem ser criadas à sombra, com apenas sol da manhã
- O excesso de sol pode matar crias e derreter a cera
- O mel só deve ser retirado no verão, mantendo reservas para o inverno
- É preciso observar predadores como forídeos (pequenas moscas)
- Colônias fracas podem precisar de alimentação energética complementar
Aspectos legais no Paraná
A criação é regulamentada pela Lei Estadual 19.152/2017, que:
- Reconhece abelhas sem ferrão como fauna silvestre brasileira
- Autoriza criação para conservação, educação, pesquisa, lazer e consumo familiar
- Não exige licença ambiental para até dez colmeias
- Recomenda cadastro na Adapar (Agência de Defesa Agropecuária do Paraná)
- Obriga cadastro para quem tem mais de dez colmeias ou comercializa produtos
Zucareli aconselha que todos os criadores façam o cadastro para contribuir com o mapeamento estadual de espécies conservadas.
Atividades educativas da UEM
A universidade mantém dois meliponários didáticos em Umuarama: um na fazenda da instituição (com oito espécies) e outro no Bosque Uirapuru (com seis espécies). O projeto oferece visitas guiadas, cursos e oficinas que ensinam desde a captura de colmeias até a transferência para caixas ornamentais.
Devido à alta demanda, as doações de colmeias são atualmente direcionadas apenas para escolas, unidades do Centro de Socioeducação do Paraná e instituições de longa permanência para idosos. No entanto, a população em geral pode participar dos cursos e aprender a criar suas próprias colmeias.



