Recorde de nascimento: 150 mil tartarugas-da-Amazônia nascem em área protegida de Roraima
150 mil tartarugas-da-Amazônia nascem em Roraima, marcando recorde

Recorde histórico: 150 mil tartarugas-da-Amazônia nascem em área protegida de Roraima

O rio Branco, no sul de Roraima, está prestes a receber milhares de novos habitantes. Até o final de março, cerca de 150 mil tartarugas-da-Amazônia vão nascer nas praias do Baixo Rio Branco, marcando um recorde histórico para o estado. Os ovos estão sendo monitorados e protegidos pelo Projeto Quelônios da Amazônia (PQA), iniciativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Monitoramento em mais de 800 ninhos

Os 150 mil filhotes foram catalogados em mais de 800 ninhos espalhados pelas praias da região, conhecidas pelos pesquisadores como "tabuleiros". O número de ovos registrados supera em quase 100 mil o ciclo reprodutivo anterior de 2023-2024, que contabilizou mais de 57 mil ovos, e ultrapassa o recorde anterior de 2024-2025, que registrou mais de 104 mil ovos.

Os ovos foram colocados entre setembro e dezembro de 2025 por fêmeas que escolheram principalmente a ilha Maú para o ciclo reprodutivo de 2025-2026. O número total ainda não foi finalizado porque tartaruguinhas continuam nascendo nos tabuleiros.

Projeto com 35 anos de história

O PQA foi criado há 35 anos para proteger espécies de quelônios em risco de extinção na Amazônia brasileira. Quelônio é todo réptil de casco, incluindo jabutis, tracajás e cágados. A tartaruga-da-Amazônia é o maior entre os que vivem fora da água salgada, podendo chegar a 1 metro de comprimento e pesar até 65 kg na fase adulta, com expectativa de vida de até 100 anos.

Em Roraima, o projeto monitora ninhos no Baixo Rio Branco, região com 16 comunidades ribeirinhas onde o acesso é feito apenas por horas navegando pelo rio. A iniciativa atua contra predadores naturais e combate a principal ameaça: o tráfico de tartarugas por criminosos conhecidos como "tartarugueiros".

Estratégia de proteção aos filhotes

Cada fêmea coloca entre 90 a 150 ovos por ninho. Quando os filhotes nascem, eles vão sozinhos até a água, momento em que se tornam presas fáceis. É nesta fase que o PQA age para garantir a segurança.

"O que fazemos aqui é o manejo [dos filhotes]. Sem interferência humana, muitos filhotes não conseguem chegar ao rio porque existem vários predadores na praia, como aves e outros animais. Sem o manejo, apenas 30 ou 40% dos filhotes conseguiriam chegar até a água. O nosso trabalho é aumentar essa taxa, garantindo que mais tartaruguinhas consigam chegar ao rio", explicou o coordenador do PQA em Roraima, Rui Bastos.

Espécie que já esteve ameaçada

A tartaruga-da-Amazônia chegou a entrar na lista de espécies ameaçadas de extinção no Brasil devido à caça e ao tráfico ilegal. O animal é consumido em algumas regiões da Amazônia, o que, ao longo de décadas, reduziu drasticamente a população adulta da espécie.

Segundo o analista ambiental do Ibama e biólogo Júlio Domingues, o projeto foi essencial para recuperar parte dessa população. "A pressão de caça e a retirada de ovos fizeram com que a população diminuísse muito ao longo do tempo. O projeto passou a atuar tanto na fiscalização quanto no monitoramento do ciclo reprodutivo da espécie, protegendo os ninhos e acompanhando as áreas de desova", explicou.

Hoje, a espécie ainda é considerada vulnerável, mas não está mais na situação crítica registrada no passado. Um dos resultados mais significativos do PQA é que a tartaruga-da-Amazônia está saindo da lista de animais ameaçados de extinção.

Papel ecológico e educação ambiental

Além do valor cultural para populações da Amazônia, a tartaruga-da-Amazônia desempenha um papel importante no equilíbrio do ecossistema dos rios. Os animais se alimentam principalmente de plantas aquáticas, sementes e algas, ajudando na dinâmica do ambiente.

"Dentro do ecossistema dos rios amazônicos, a tartaruga faz parte da cadeia alimentar. Ela consome plantas e sementes e também serve de alimento para peixes e outros animais. Isso ajuda a manter o equilíbrio ambiental", explicou Domingues.

O projeto também trabalha com educação ambiental nas comunidades ribeirinhas. Durante a soltura de filhotes realizada na sexta-feira (6), estudantes da escola municipal Oscar Batista Dos Santos, da comunidade ribeirinha de Sacaí, participaram da devolução dos filhotes ao rio.

Para chegar ao local, foram necessárias 9 horas de barco saindo de Caracaraí descendo pelo rio Branco. A ação contou com a parceria da prefeitura de Caracaraí e representou uma experiência única para os estudantes.

Estratégias reprodutivas curiosas

Entre os quelônios protegidos pelo programa, as tartarugas-da-Amazônia são as maiores. De acordo com o pesquisador Eduardo Bessa, as tartarugas são principalmente herbívoras, alimentando-se de plantas aquáticas e frutos, sendo importantes para a propagação de sementes.

"Na idade reprodutiva, durante a seca, machos e fêmeas acasalam no rio, e a fêmea sobe à praia à noite para desovar, às vezes em grupos enormes chamados arribada", explicou Bessa.

As estratégias reprodutivas desses animais seguem o modelo ecológico conhecido como estratégia R, onde as fêmeas produzem muitos filhotes com a expectativa de que alguns sobrevivam, diferentemente da estratégia K, onde há poucos filhotes que recebem cuidados parentais intensivos.

Estrutura do projeto e parcerias

O PQA tem uma história multifacetada com foco central na conservação das tartarugas amazônicas. O projeto salvou cerca de 100 milhões de filhotes no Brasil desde sua criação.

Embora seja uma iniciativa do Ibama, o projeto conta com parceria da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh), especialmente na região do Baixo Rio Branco, dentro das unidades de conservação estadual.

A região onde o PQA atua é considerada uma área protegida, com proibição da pesca, principalmente com redes do tipo malhador, durante o período reprodutivo. Em Roraima, as equipes em campo são compostas por servidores do Ibama, pilotos de barcos, policiais para segurança dos servidores e colaboradores locais.

O projeto conta com o apoio da Companhia Independente de Policiamento Ambiental (Cipa), que monitora atividades ilegais e medeia conflitos com pescadores e ribeirinhos, garantindo a continuidade deste trabalho essencial para a preservação da biodiversidade amazônica.