Paraíso turístico de Caraíva vira campo de guerra entre facções criminosas na Bahia
Caraíva: paraíso turístico vira campo de guerra entre facções

Do paraíso ao inferno: a transformação violenta de Caraíva

A icônica casinha verde com porta e janelas vermelhas, que se tornou símbolo fotográfico de Caraíva, no município de Porto Seguro, Bahia, agora divide atenção com um cenário sombrio de violência. O pequeno vilarejo praiano, conhecido pelo encontro do rio com o mar, pela ausência de carros e asfalto, e pelos extensos coqueirais, vive em 2025 uma realidade até pouco tempo inimaginável: assassinatos, toques de recolher, operações policiais com mortes e apreensão de armas pesadas, incluindo fuzis.

O avanço do crime organizado para longe dos centros urbanos

Por trás desse cenário idílico transformado, existe uma disputa territorial entre grupos criminosos que acompanhou o crescimento turístico da região. Moradores e fontes policiais relatam que uma facção local, conhecida como Anjos da Morte (ADM), aliada ao Comando Vermelho do Rio de Janeiro, agora enfrenta a invasão de novos grupos associados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). "Isso aqui virou um campo de guerra", desabafa um morador que prefere não se identificar por questões de segurança.

O fenômeno não é isolado. Repete-se em outros destinos turísticos badalados do Nordeste, como Porto de Galinhas em Pernambuco, Pipa no Rio Grande do Norte e Jericoacoara no Ceará. A combinação de turistas com alto poder aquisitivo, festas com consumo de drogas e pouca presença do poder público transforma esses paraísos em minas de ouro para o crime organizado. "É uma região com turismo de poder aquisitivo muito alto, e você vê uma disputa para dominar a terra, o espaço e, sobretudo, para vender drogas", analisa o delegado Diego Gordilho, da Polícia Federal em Porto Seguro.

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Componente indígena e disputas históricas por terra

Caraíva apresenta uma complexidade adicional: sua vizinhança com a aldeia indígena Xandó, parte da Terra Indígena Barra Velha, dentro do Parque Nacional do Monte Pascoal. Áreas indígenas possuem limitações específicas de fiscalização e presença policial, competência da Polícia Federal ou das Forças Armadas, o que grupos criminosos tentam explorar. Além disso, a região do extremo sul baiano carrega históricos conflitos entre fazendeiros e indígenas pela posse da terra, muitas vezes resolvidos com tiros e mortes.

"A violência das facções em Caraíva também está cercada dessa outra violência, a de fazendeiros contra nativos e o povo pataxó", explica o professor Paulo Dimas Menezes, da Universidade Federal do Sul da Bahia, que pesquisa a gentrificação causada pelo turismo na região. Em fevereiro, duas turistas gaúchas foram baleadas ao passar por uma área de disputa em Prado, cidade vizinha, ilustrando o perigo constante.

Operações letais e números alarmantes

Em apenas três operações policiais conduzidas pela Polícia Federal junto à Polícia da Bahia em 2025, doze pessoas foram mortas em Caraíva. Um número que supera as mortes decorrentes de operações policiais em estados inteiros como Acre ou Roraima, segundo dados do Ministério da Justiça. A Polícia da Bahia lidera o ranking nacional de letalidade em operações, com 1.569 mortes em 2025.

Porto Seguro ocupa a 6ª posição entre as cidades com maior taxa de mortes em operações policiais no Brasil e é a 14ª mais violenta em taxa geral de homicídios, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A morte do guia turístico Victor Cerqueira, conhecido como Vitinho, durante uma operação em maio de 2025, chocou a comunidade e expôs publicamente a violência local. Sua família acusa a polícia de confusão de identidade, enquanto a Polícia Civil afirma que as investigações não apontaram erro na conduta dos agentes.

Mudança no perfil do crime e armamento pesado

Moradores relatam que, até recentemente, conheciam os integrantes do tráfico local, mas a chegada de novos grupos criou anonimato e insegurança. "Antes, todo mundo sabia quem eram os membros do 'corre', cumprimentava na rua. Agora ninguém sabe quem é quem", conta um residente. O delegado Gordilho observa que o armamento apreendido – fuzis, granadas e roupas camufladas – indica alianças entre facções locais e nacionais. Entre maio e dezembro de 2025, foram apreendidos 27 fuzis apenas em Caraíva.

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A Bahia concentra 21 organizações criminosas, o maior número do país, segundo a Secretaria Nacional de Políticas Penais. O professor Misael França, especialista em segurança pública, explica que a fragmentação começou em 2004, com a prisão de uma grande liderança em Salvador, abrindo espaço para disputas territoriais e entrada de facções de outros estados.

Turistas no meio do fogo cruzado

Apesar da violência, Caraíva continua movimentada, e muitos turistas desfrutam suas férias sem perceber a presença criminosa. No entanto, situações de risco ocorrem. Uma turista mineira relatou à BBC News Brasil que ficou trancada em um quarto de pousada por horas durante um toque de recolher no final de 2024, após ouvir um tiroteio. "Ninguém explicava o que estava acontecendo, mas tudo começou a fechar as portas", descreve. No dia seguinte, a normalidade aparente retornou, com moradores evitando o assunto.

Segundo relatos, as facções evitam conflitos durante a alta temporada para não afastar turistas, e há até "acordos" para manter a paz. Em grupos de WhatsApp, circulam mensagens supostamente das facções orientando o comportamento de moradores e donos de pousadas, com ameaças contra quem alugar casas para membros de grupos rivais de praias vizinhas.

Pressão imobiliária e disputa territorial

A especulação imobiliária, impulsionada pelo turismo de alto padrão na década de 2010, exacerbou as tensões. A ponta de Caraíva que não faz parte da terra indígena não comporta mais a expansão, levando a avanços irregulares sobre a aldeia Xandó. "Há um racha no povo Pataxó entre os que fazem venda de terras e os que querem a integridade do território", afirma o professor Menezes.

A região também atrai facções por sua localização estratégica próxima à "tríplice fronteira" entre Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, servindo como rota para escoamento de ilícitos por terra e mar. Um morador resume o cenário como "a guerra entre Rússia e Ucrânia: ninguém sabe o que vai acontecer", esperando apenas que um acordo ou vitória definitiva de um grupo traga alguma estabilidade, já que o fim das facções parece uma utopia distante.