Viúva de jovem morto pela PM em Piracicaba vive com medo após liberdade provisória de policiais
Viúva teme após liberdade de PMs acusados de matar jovem em Piracicaba

Viúva de jovem morto pela PM em Piracicaba vive com medo após liberdade provisória de policiais

Com apenas 20 anos e mãe de três crianças, a viúva de Gabriel Júnior Oliveira Alves da Silva enfrenta dificuldades financeiras e vive em constante temor após a Justiça de São Paulo conceder liberdade provisória aos policiais militares acusados de matar seu companheiro. O caso, que chocou a região de Piracicaba, ocorreu em abril de 2025, no bairro Vila Sônia, durante uma abordagem da Polícia Militar.

Detalhes do caso e processo judicial

Gabriel, que tinha 22 anos, foi baleado na cabeça durante a intervenção policial, ação que foi filmada e presenciada por vizinhos. No processo criminal, dois policiais militares foram indiciados pela morte do jovem, enquanto outros quatro respondem por coação e violação de prerrogativas de advogados. A viúva soube da soltura dos PMs durante a audiência de pronúncia, realizada em janeiro de 2026, etapa em que a Justiça decide se os réus serão julgados pelo Tribunal do Júri.

No entanto, a audiência foi cancelada porque um dos policiais acusados de coação apresentou um atestado médico e não compareceu, conforme informou Gustavo Pires, advogado presidente da Comissão dos Direitos Humanos da OAB. Pires também destacou que as testemunhas de acusação não apareceram, pois estavam com medo de represálias.

Medo e impacto na família

“Dá um medo, né? O advogado falou que eles não podem chegar perto enquanto o caso está rodando, mas dá medo porque eles podem passar em um carro diferente, um carro disfarçado, vai saber”, desabafou a viúva. Ela relatou que, inicialmente, a polícia militar passava frequentemente pelo local, mas após a divulgação do caso na mídia, as visitas diminuíram. Ainda assim, os policiais são reconhecidos e, segundo ela, alguns até demonstram desdém.

Além da morte de Gabriel, os policiais são acusados de agredir a mulher durante a abordagem, que na época estava grávida de sete meses. Após o ocorrido, a viúva passou a depender de ajuda familiar e de programas assistenciais, como o Bolsa Família, para criar os três filhos: um menino de seis anos, uma menina de um ano e oito meses e a caçula, de oito meses, que nunca conheceu o pai.

O filho mais velho é quem mais sente a falta do pai, conforme relatou a mãe: “Ele fica bem triste. Às vezes, pega o celular, fica olhando as fotos e vídeos do pai dele”. Gabriel era autônomo, trabalhava como servente de pedreiro e era o principal responsável pelo sustento da família.

Versões conflitantes e posicionamentos

O caso apresenta duas versões distintas. Segundo a Polícia Militar, a equipe abordou Gabriel por portar um “volume suspeito”, e ele teria resistido, fugido e retornado segurando uma pedra, ameaçando os agentes. A PM afirma que, ao arremessar a pedra, um policial efetuou o disparo que o atingiu na cabeça. A corporação também alega que a esposa e outro abordado agrediram fisicamente os policiais.

Já a viúva nega veementemente essa narrativa. Ela conta que estava comprando milho com o marido quando foram abordados sem motivo aparente. Gabriel segurava um refrigerante, e ela aguardava o milho ficar pronto. Segundo seu relato, um policial a puxou pelo cabelo enquanto outro agredia o marido, e ela foi colocada no camburão, sendo xingada e ameaçada. A mulher insiste que o marido nunca pegou qualquer pedra para agredir os policiais.

O advogado João Carlos Campanini, que defende os dois PMs acusados de matar Gabriel, afirmou que a liberdade provisória foi concedida porque “a verdade já está aparecendo” e que buscará comprovar definitivamente a inocência deles. Enquanto isso, a Secretaria de Segurança Pública informou que, com a liberdade provisória, os policiais voltaram a atuar na corporação, mas em funções internas na região de Piracicaba.

Recursos e ações em andamento

O Ministério Público de São Paulo recorreu da decisão que concedeu liberdade provisória aos policiais em dezembro de 2025. Até o momento, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo não analisou o recurso. Além do processo criminal, há uma ação contra o estado para garantir indenização aos filhos de Gabriel, conforme explicou Gustavo Pires.

A viúva, que enfrenta o luto e as dificuldades diárias, resume sua situação: “É muito difícil. É triste para a gente, eu tenho que seguir pelos meus filhos. É uma coisa que nem gosto muito de pensar”. O caso continua a gerar comoção e debates sobre violência policial, justiça e direitos humanos na região.