Operação em Salvador termina em violência policial contra moradores de rua
Uma ação da Guarda Municipal de Salvador, realizada na tarde desta terça-feira (27), terminou em cenas de violência e agressões contra pessoas em situação de rua na Avenida Vasco da Gama. Agentes foram flagrados utilizando cassetetes, disparando armas de fogo e empregando dispositivos de condução elétrica durante a intervenção, que contou com o apoio da Secretaria de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esporte e Lazer (Sempre).
Imagens registram momento de tensão e agressões
Um cinegrafista da TV Bahia capturou imagens que mostram os guardas municipais tentando retirar indivíduos que estavam no local. Em um dos momentos mais críticos, uma mulher se aproximou de um dos agentes e foi empurrada com força. Ao resistir à condução para a viatura policial, ela foi alvo de abordagem violenta por três guardas.
Nas filmagens, é possível observar um dos agentes apontando uma arma na direção de outras pessoas que tentaram se aproximar para impedir que a mulher fosse levada. Em seguida, ocorreram dois disparos, enquanto outro guarda fez uso de um dispositivo de condução elétrica. Um homem que se aproximou com as mãos para cima também foi alvo de disparo, aumentando o clima de tensão no local.
Mulher é ferida e precisa de atendimento médico
A mulher, que resistiu à condução, foi colocada na viatura com empurrões, socos e chutes, resultando em um sangramento no rosto. Ela foi levada imediatamente para o Hospital Geral do Estado (HEG), onde recebeu atendimento médico e, posteriormente, alta. Após o tratamento, a vítima foi encaminhada para a Central de Flagrantes, onde o caso foi devidamente registrado.
Versão oficial das autoridades municipais
Em nota, a Guarda Municipal explicou que a operação tinha como objetivo prestar apoio à Sempre em uma ação de abordagem social e ordenamento sob o viaduto da Vasco da Gama. A intervenção visava o recolhimento de equipamentos usados de forma irregular na rua, conforme solicitações da população.
A instituição afirmou que os funcionários da Sempre foram alvo de hostilidade por parte das pessoas em situação de rua. Diante da recusa no cumprimento das determinações legais e da oposição física à fiscalização, os agentes utilizaram instrumentos de menor potencial ofensivo, como dispositivos de eletrocondutividade e bastões operacionais, em estrita observância à doutrina de uso progressivo da força.
Segundo a Guarda Municipal, a situação se agravou quando as pessoas começaram a arremessar objetos contundentes, incluindo pedras e madeiras, contra os agentes. O disparo de advertência teria ocorrido após o esgotamento dos meios menos letais e a necessidade urgente de cessar a agressão.
Posicionamento da Secretaria de Promoção Social
A Sempre, por sua vez, esclareceu que a ação teve caráter eventual e foi realizada de forma conjunta com a Limpurb, a Guarda Municipal e outros órgãos municipais. O objetivo principal era promover a retirada de acúmulo de lixo na rua, em um ponto onde havia concentração de resíduos acumulados por pessoas em situação de rua.
A secretaria destacou que durante a operação houve resistência por parte de algumas pessoas, que tentaram agredir os profissionais envolvidos. Por isso, foi necessário acionar os guardas municipais para garantir a segurança dos servidores, a manutenção da ordem e a continuidade do serviço. A pasta ressaltou que nenhuma assistente social ficou ferida durante o incidente.
A Sempre reforçou que o acolhimento compulsório não é adotado pela gestão municipal e que o encaminhamento para Unidades de Acolhimento Institucional (UAIs) ou para outros serviços da rede socioassistencial ocorre exclusivamente de forma voluntária, com a manifestação de interesse da pessoa atendida.
Contexto e repercussões do caso
Este episódio levanta questões importantes sobre os métodos empregados pelas forças de segurança em operações que envolvem populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua. A violência registrada nas imagens contrasta com o discurso oficial de abordagem social e garantia de direitos, gerando preocupação sobre a atuação dos agentes em situações similares.
A comunidade local e defensores de direitos humanos devem acompanhar de perto as investigações sobre o ocorrido, exigindo transparência e responsabilização pelos excessos cometidos. A necessidade de equilibrar a manutenção da ordem pública com o respeito aos direitos fundamentais dos cidadãos permanece um desafio constante para as autoridades municipais.