Uma operação de fiscalização migratória do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) terminou em tragédia na quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, em Minneapolis, Minnesota. Um agente federal matou a tiros Renee Nicole Macklin Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhos e poetisa premiada, que supostamente observava a ação dos agentes.
Quem era a vítima: uma vida dedicada à arte e à família
Renee Nicole Good tinha 37 anos e havia se mudado recentemente para Minneapolis, vinda de Kansas City, no Missouri. Ela era conhecida por seu talento literário e por seu papel dedicado como mãe. Formada em Inglês e Escrita Criativa pela Old Dominion University, na Virgínia, Renee ganhou destaque ao vencer um prêmio de graduação da Academia de Poetas Americanos em 2020, com a obra “Sobre Aprender a Dissecar Fetos de Porcos”.
Sua biografia, citada pela imprensa americana, descrevia uma pessoa multifacetada: “Quando não está escrevendo, lendo ou falando sobre escrita, ela faz maratonas de filmes e cria arte bagunçada com sua filha e seus dois filhos”. Renee também apresentava um podcast com seu segundo marido, Tim Macklin, falecido em 2023.
Sua mãe, Donna Ganger, a definiu ao Minnesota Star Tribune como “uma das pessoas mais gentis que já conheci”, destacando seu caráter amoroso e cuidadoso. O ex-marido, que preferiu não ser identificado, reforçou que ela era uma cristã devota e mãe dedicada, sem envolvimento com ativismo político – um contraste direto com a alegação infundada do ex-presidente Donald Trump, que a chamou de “agitadora profissional”.
O incidente fatal: vídeo contradiz versão oficial
O episódio ocorreu em um bairro residencial ao sul do centro de Minneapolis, a cerca de 1,6 km do local onde George Floyd foi assassinado em 2020. De acordo com testemunhas e imagens gravadas, agentes do ICE se aproximaram de forma agressiva do veículo dirigido por Renee. No vídeo, é possível vê-la acelerando o SUV enquanto os agentes se aproximam.
Um dos agentes sacou sua arma e disparou várias vezes através da janela abaixada, atingindo Renee no rosto. Uma testemunha que registrou o momento pode ser ouvida gritando: “Meu Deus, que p*rra você acabou de fazer?”.
Emily Heller, moradora da região, relatou à Rádio Pública de Minnesota que os agentes gritaram “Saia daqui” para a motorista. “Ela estava tentando dar a volta, e o agente do ICE estava na frente do carro dela… ele se inclinou sobre o capô e atirou no rosto dela umas três ou quatro vezes”, detalhou Heller.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) apresentou uma versão completamente diferente. Em comunicado, afirmou que Renee tentou atropelar os agentes com seu veículo, caracterizando o ato como “terrorismo doméstico”, o que teria levado o agente a agir em legítima defesa. No entanto, as imagens disponíveis mostram o SUV sendo direcionado para longe do agente, não em sua direção.
Repercussão e indignação política
A resposta das autoridades locais foi imediata e contundente. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, classificou a versão federal como “absurda” e uma “grande mentira”. “Tendo visto o vídeo, quero dizer a todos diretamente: isso é uma grande mentira”, declarou Frey, criticando a presença massiva de mais de 2.000 agentes federais na região como parte de uma campanha de repressão à imigração.
“O que eles estão fazendo não é proporcionar segurança na América. O que eles estão fazendo é causar caos e desconfiança”, continuou o prefeito. “Eles estão destruindo famílias. Estão semeando o caos em nossas ruas e, neste caso, literalmente matando pessoas.”
O caso reacendeu o debate sobre os métodos do ICE e a escalada de operações migratórias agressivas, levantando questões urgentes sobre abuso de autoridade, transparência e violência institucional. A comunidade de Minneapolis, ainda marcada pela morte de George Floyd, viu mais uma vida ser interrompida em um confronto com forças de segurança, gerando novos protestos e exigências por justiça e responsabilização.