Vítima de treinador de futebol em Piraju (SP) relembra abusos após 20 anos em terapia
Vítima de treinador em Piraju relembra abusos após 20 anos em terapia

Vítima de treinador de futebol em Piraju (SP) relembra abusos após 20 anos em terapia

Um dos homens que denunciaram um treinador de futebol investigado por pedofilia pela Polícia Civil em Piraju, interior de São Paulo, conseguiu resgatar as lembranças dos abusos sofridos na infância durante uma sessão de terapia. O processo terapêutico permitiu que ele compreendesse que o trauma havia impedido sua percepção sobre a gravidade dos acontecimentos por duas décadas.

Denúncia pública após duas décadas

A vítima, que preferiu manter o anonimato, revelou ao g1 que somente teve coragem de tornar o caso público 20 anos após os fatos, através de uma postagem em redes sociais. Além da exposição digital, ela registrou formalmente um boletim de ocorrência em setembro do ano passado, detalhando as situações vividas.

"Têm sido dias difíceis e de muita luta, pois, além do esforço de reviver o caso para fazer e expor a denúncia, não temos resposta de nenhum órgão a respeito do assunto", lamentou a vítima, destacando a frustração com a falta de retorno das autoridades.

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Detalhes dos abusos relatados à polícia

No depoimento registrado oficialmente, a vítima descreveu que foi abordada pelo treinador em 2005, quando tinha apenas 10 anos de idade. Segundo o relato, o investigado se aproximava sistematicamente dos alunos durante os treinos e os convidava para visitar sua residência.

Os abusos teriam ocorrido em múltiplas ocasiões, evoluindo gradualmente em gravidade:

  • Nas primeiras situações, o homem teria realizado toques nas pernas e no pênis da criança
  • Em episódio posterior, o suspeito teria solicitado que a vítima se deitasse de bruços e realizado penetração
  • O treinador sempre pedia sigilo à criança, alegando que as situações contribuiriam para seu desempenho esportivo

Rede de apoio e novas revelações

Após a primeira vítima tornar público seu caso, outras pessoas começaram a relatar experiências similares com o mesmo suspeito. "Criamos uma rede na qual nos apoiamos entre os casos novos e antigos e nos manifestamos cobrando informação e justiça", explicou o denunciante inicial.

A repercussão do caso trouxe sentimentos contraditórios: alívio por não estar mais sozinho, mas também a confirmação de suspeitas anteriores. "Na verdade, eu já imaginava que ele ainda fazia isso, eu não devo ter sido o primeiro e nem o último", confessou o homem, que passou a receber contatos de outras possíveis vítimas.

Investigação policial em andamento

As investigações tiveram início em janeiro deste ano, quando um grupo procurou a delegacia de Piraju para registrar ocorrências sobre abusos sexuais supostamente cometidos pelo treinador. Segundo a Polícia Civil, os casos teriam ocorrido em períodos distintos, com o primeiro registrado em 1998 e o mais recente em 2024.

As vítimas identificadas até o momento são todas do sexo masculino e tinham entre sete e treze anos na época dos supostos abusos. Em um dos registros de 2024, consta que uma vítima menor de idade procurou o Conselho Tutelar e necessitou de atendimento especializado no Centro de Referência de Assistência Social.

Ação policial e medidas administrativas

Em 30 de janeiro, a Polícia Civil cumpriu mandado de busca e apreensão na residência do investigado, localizada no Conjunto Habitacional "Vereador Osvaldo Dearo Castilho". Durante a operação, foram apreendidos diversos aparelhos eletrônicos pertencentes ao homem.

O treinador é proprietário de uma escola de futebol que funcionava normalmente até janeiro, financiada por pais de alunos e empresários. A Prefeitura de Piraju informou que o suspeito atua na rede pública municipal desde 1992, exercendo atualmente o cargo de monitor de esportes.

Em razão das denúncias, o homem foi afastado de suas funções e dois processos administrativos foram instaurados contra ele. O Ministério Público confirmou que os fatos estão sendo investigados pela Polícia Civil, com os procedimentos tramitando sob sigilo devido à natureza do crime e possibilidade de existirem outras vítimas.

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Defesa do investigado

Procurado para se manifestar, o treinador não retornou os contatos do g1. Entretanto, em vídeo publicado em redes sociais, ele rebateu veementemente as acusações: "Recentemente fiquei sabendo de diversas acusações com relação à minha pessoa. Eu sou uma pessoa de família. Jamais na minha vida eu cometeria algo dessa natureza, principalmente com crianças".

O caso continua sob investigação da delegacia de Piraju, enquanto as vítimas buscam justiça e apoio mútuo para enfrentar as consequências psicológicas dos traumas vividos.