Sobrevivente de tentativa de feminicídio no Paraná envia carta comovente à cerimônia de formatura que não pôde comparecer
Sayonara da Silva, vítima de uma tentativa de feminicídio em Apucarana, no norte do Paraná, perdeu sua própria formatura em Administração por estar, segundo suas palavras, dentro de um "ciclo de injustiça". A declaração está em uma carta emocionante que ela enviou à cerimônia de colação de grau, lida por uma professora durante o evento realizado em 27 de fevereiro.
Ausência forçada e denúncia do sistema
No texto, Sayonara - que rompeu o relacionamento, fez a denúncia e tinha uma medida protetiva contra o ex-companheiro - ressalta que perdeu sua liberdade após ser vítima do crime. "Minha ausência nesta festa não é uma escolha, é reflexo da falha de um sistema que ainda obriga a vítima a se esconder enquanto o agressor desfruta da liberdade", escreveu a vítima.
Ela lamenta profundamente não poder estar presente fisicamente: "minha voz chega até vocês através deste papel, porque a minha presença física me foi roubada". E acrescenta: "Não estou aí porque o homem que tentou apagar a minha luz e a vida do meu filho caminha livre".
Instituição de ensino manifesta apoio
A Unespar, instituição onde ela estudou, publicou uma nota de apoio citando que a mulher rompeu um ciclo de violência e buscou "por meio da educação a construção de um projeto de vida autônomo". A universidade destacou a coragem da estudante em perseguir seus objetivos acadêmicos mesmo diante de circunstâncias extremamente adversas.
Especialistas analisam a complexidade da violência
A promotora Mariana Bazzo destacou ao g1 a dificuldade das mulheres lidarem com o trauma gerado ao verem como agressor alguém que um dia elas confiaram. No caso específico de Apucarana, a promotora avalia como um medo concreto, pois o principal suspeito continua em liberdade.
"Essa ruptura violenta da confiança gera efeitos psicológicos complexos [...] Assim, o estado de alerta e de insegurança não é meramente subjetivo ou hipotético, mas fundamentado em um risco real e presente, o que prolonga e intensifica os efeitos traumáticos vivenciados pela vítima", explicou a promotora.
Observatório de Feminicídios explica dinâmica da violência
O Observatório de Feminicídios Londrina (Néias) explicou ao g1 que a sensação de vulnerabilidade e de impunidade acompanham as vítimas de violência, que passam a lidar com os "efeitos prolongados das ameaças, da perseguição, do controle e da desproteção institucional".
Por isso, reforça a necessidade de entender que, quando há a quebra do ciclo de violência, não se trata de um evento pontual. Na verdade, é o início de um processo que exige acompanhamento de profissionais junto a políticas públicas.
A volta da liberdade para a mulher pode acontecer aos poucos, a partir do momento que a vítima não lida com o reflexo do crime sozinha e quando há punição a quem o cometeu. "[...] A sensação de segurança também depende de responsabilização real, que vai além da punição do agressor, mas inclui a necessidade dele passar por um processo de reeducação antes de voltar ao convívio social", explicou o observatório.
Trechos marcantes da carta de Sayonara
Na íntegra de sua carta, Sayonara expressa:
- "Gostaria muito que estas palavras fossem ditas por mim, olhando nos olhos de cada colega, professor e familiar"
- "Formo-me hoje, mas não posso subir ao palco. Enquanto celebramos o fim de um ciclo acadêmico, eu enfrento o auge de um ciclo de injustiça"
- "Estudei entre medos e traumas. Escrevi trabalhos enquanto protegia meus filhos. Persisti quando o mundo me dizia que bastava apenas sobreviver"
- "Estudar não é rebeldia. Estudar é um ato de resistência"
- "Viva a universidade pública. Viva a UNESPAR"
Detalhes do crime em Apucarana
A mulher tem uma medida protetiva contra o ex-companheiro, Ademar Augusto Crepe, de 58 anos. Em 10 de fevereiro, o carro que ela dirigia foi interceptado por uma caminhonete em Apucarana. Com o impacto, o carro em que estava com o filho foi jogado contra um poste de iluminação pública, e a estrutura de concreto caiu sobre o veículo.
Testemunhas e a própria vítima relataram à Polícia Militar do Paraná que Ademar estava dirigindo a caminhonete. "Relatou ainda que, na sequência, o autor apontou uma arma de fogo em sua direção, ameaçando matá-la, e que, segundo seu relato, o autor chegou a acionar o gatilho de um revólver, porém, por motivos alheios, não houve disparo", consta no boletim de ocorrência.
Após o incidente, Ademar fugiu do local. A ex-companheira e o filho passaram por atendimento médico na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Apucarana. A Polícia Civil solicitou a prisão preventiva de Ademar, que foi aceita pela Justiça no dia 13 de fevereiro. Entretanto, até o momento, ele permanece foragido.
Contexto dos feminicídios no Paraná
Segundo o relatório do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), o Paraná registrou 87 feminicídios em 2025. Durante o ano de 2024, 109 mulheres foram assassinadas em crimes no contexto de violência doméstica e ódio ao gênero feminino.
A Central de Atendimento à Mulher para denúncias está disponível 24 horas por dia através do telefone 180. O serviço oferece suporte e orientação para mulheres em situação de violência em todo o território nacional.



