Seis anos atrás, a farmacêutica alemã BioNTech, então quase desconhecida, desenvolveu a primeira vacina contra a covid-19 baseada em RNA mensageiro (mRNA), mudando o rumo da pandemia global. A empresa, que havia passado mais de uma década pesquisando imunizantes contra o câncer sem grande interesse comercial, uniu-se à Pfizer em 2020 para concluir os testes clínicos e lançar a Comirnaty em tempo recorde. Em dezembro daquele ano, a britânica Margaret Keenan recebeu a primeira dose. Embora Rússia e China já tivessem aplicado vacinas de vetor viral emergencialmente, a BioNTech se destacou.
Hoje, porém, a empresa sediada em Mainz enfrenta uma dura realidade. Após distribuir bilhões de doses e ser creditada por salvar milhões de vidas, a BioNTech anunciou na terça-feira (05/04) um amplo corte de custos, após registrar prejuízo líquido trimestral de 532 milhões de euros (R$ 3 bilhões). Unidades na Alemanha e em Singapura serão fechadas, e os fundadores, Ugur Sahin e Özlem Türeci, deixarão a empresa. Cerca de 1.860 empregos devem ser afetados.
Por que a BioNTech está em crise?
Analistas financeiros apontam que os problemas decorrem do fim do ganho temporário com a covid, que gerou dezenas de bilhões de euros desde 2020. A dependência de um único produto, combinada com a natureza de alto risco da biotecnologia, evidenciou a fragilidade. Os problemas econômicos da Alemanha, como altos custos de mão de obra e energia, além da burocracia, agravam o cenário.
Demanda por vacina cai mais rápido que o esperado
A demanda pela Comirnaty evaporou rapidamente: a receita do primeiro trimestre de 2026 caiu para 118 milhões de euros (R$ 684 milhões), uma queda de 35% em relação ao ano anterior. A empresa prevê receitas ainda menores em 2025, impulsionadas por quedas nos mercados europeu e dos EUA. A capacidade produtiva, ampliada durante o boom, agora resulta em fábricas ociosas. A BioNTech transferirá toda a produção da vacina contra a covid para a Pfizer.
Cortes miram a CureVac após aquisição
A empresa também enfrenta controvérsia com a aquisição de 1,25 bilhão de dólares (R$ 6,16 bilhões) da rival CureVac em dezembro de 2025. A CureVac havia desenvolvido um imunizante candidato contra a covid de baixa eficácia, que foi abandonado, mas processou a BioNTech e a Pfizer em 2022 por violação de patentes. Ao comprar a rival e suas patentes, a BioNTech encerrou os litígios, mas a antiga fábrica da CureVac em Tübingen foi incluída nos cortes. O prefeito Boris Palmer acusou a empresa de adotar uma estratégia de "comprar primeiro e depois matar", chamando o fechamento de "golpe duro". O sindicato IG BCE classificou a medida como "terra arrasada", e a câmara de comércio local alertou para a perda de know-how tecnológico.
A BioNTech consegue prosperar sem seus fundadores?
Sahin e Türeci, que deixarão a empresa até o fim do ano para lançar um novo empreendimento, eram a força motriz por trás do sucesso. As ações da empresa caíram 18% após o anúncio, e o banco Leerink Partners questionou se a empresa manterá sua vantagem inovadora sem eles. A farmacêutica agora foca em tratamentos de mRNA contra o câncer, com 15 ensaios clínicos de Fase 3 em andamento. Sahin afirmou que a empresa continuará focada em acelerar programas estratégicos. Ao transferir a produção para a Pfizer e fechar fábricas, a BioNTech espera economizar 500 milhões de euros (R$ 2,8 bilhões) por ano até 2029, mantendo uma pequena participação na nova startup dos fundadores.



