São Paulo cria força-tarefa contra feminicídios após aumento de 31% nos casos
SP cria força-tarefa contra feminicídios após aumento de 31%

São Paulo lança força-tarefa para enfrentar escalada de feminicídios no estado

O governo de São Paulo anunciou nesta segunda-feira (30) a criação de uma força-tarefa integrada para ampliar a rede de proteção às mulheres e conter o avanço dos feminicídios no território paulista. A iniciativa reúne o Executivo estadual, o Tribunal de Justiça, o Ministério Público, o Tribunal de Contas e a Defensoria Pública em um esforço conjunto sem precedentes.

Governador cita casos recentes que chocaram a população

Durante a abertura do evento no Palácio dos Bandeirantes, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) destacou a urgência das medidas ao mencionar casos recentes que comoveram a sociedade. Ele citou especificamente os feminicídios de Tainara, de Priscila e da policial militar Gisele, encontrada com um tiro na cabeça, como exemplos da gravidade da situação.

Os números revelam uma realidade alarmante: segundo dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP), São Paulo registrou 55 casos de feminicídio no primeiro bimestre deste ano, o que equivale a uma mulher assassinada a cada 25 horas. Este número representa um aumento preocupante de 31% em comparação com o mesmo período de 2025.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Pacote de medidas inclui departamento especializado e ações preventivas

Entre as ações anunciadas está um plano de metas específico para o enfrentamento à violência contra a mulher e um decreto que reclassifica as Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) para ampliar o efetivo policial e tornar essas unidades mais atrativas para os profissionais de segurança.

O pacote contempla ainda:

  • Atendimento itinerante através de uma carreta equipada com assistente social, psicólogo, Defensoria e Ministério Público, que percorrerá municípios menores
  • Ampliação do monitoramento de agressores com tornozeleira eletrônica
  • Cooperação técnica para fortalecer grupos reflexivos de homens, com ações de prevenção voltadas para paternidade, machismo e resolução de conflitos
  • Estudo para levar conteúdos educativos sobre relações de gênero para escolas, desde a primeira infância

Departamento especializado será criado dentro do DHPP

A secretária estadual de Políticas para a Mulher, Adriana Liporoni, afirmou que o governo trabalha para estruturar um departamento especializado que coordene de forma integrada as ações de investigação de crimes contra mulheres, funcionando como uma espécie de "DHPP da Mulher".

"A ideia do governo é avançar e estruturar um departamento para que coordene essas ações de maneira integrada. Estamos trabalhando para isso", declarou Liporoni.

Embora o governo ainda não tenha definido nome nem data de implementação, integrantes da gestão afirmam, nos bastidores, que a criação do departamento já é considerada certa e deve funcionar dentro do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil de São Paulo. A avaliação interna é de que a nova estrutura deve centralizar investigações e padronizar procedimentos voltados a crimes contra mulheres.

Recorde histórico de feminicídios em 2025

Em 2025, o estado de São Paulo registrou o maior número de casos de feminicídio desde o início da série histórica em 2018. Entre janeiro e dezembro, foram 270 ocorrências, o que significa que, em média, uma mulher foi assassinada a cada 32 horas. Os dados da SSP mostram que, em relação ao ano anterior, quando 246 mulheres foram mortas, os casos aumentaram mais de 8%.

A escalada da violência contra as mulheres também é verificada na capital paulista, que bateu recorde histórico com 60 feminicídios em 2025, contra 49 em 2024, representando um aumento superior a 22%.

Especialistas destacam complexidade do problema

A violência contra a mulher é uma questão complexa, estrutural e profundamente ligada a uma sociedade patriarcal e machista, que se manifesta tanto nas relações privadas quanto nas falhas do poder público. Segundo a promotora Fabíola Sucasas, da Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência contra a Mulher no Ministério Público de São Paulo (MP-SP), os pilares do combate à violência passam pelo foco no agressor, pela proteção efetiva às mulheres, pela educação de longo prazo e pelo orçamento público adequado.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

A delegada Eugênia Villa, criadora da primeira delegacia especializada em feminicídios do Brasil, destacou que "o freio inibidor para um potencial feminicida é a sua imediata prisão conjugada com a inserção em programas que o auxiliem a refletir sobre masculinidades e relações de poder".

Especialistas apontam que o papel do Estado é central nesse cenário, porém, vem mostrando muitas falhas, como a ausência de delegacias de defesa da mulher em todos os territórios, falta de monitoramento das medidas protetivas e implementação insuficiente de grupos reflexivos para homens. Pesquisadores alertam também para os limites do direito penal, destacando que a punição, sozinha, não é suficiente para mudar comportamentos nem impedir a reincidência.

Canais de ajuda para mulheres em situação de violência

Para mulheres em situação de violência, existem diversos canais oficiais e gratuitos disponíveis:

  1. Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas com orientação e acolhimento
  2. Ligue 190 – Polícia Militar para situações de emergência imediata
  3. Delegacia da Mulher (DDM) – Atendimento especializado para registro de boletim de ocorrência
  4. Delegacia Eletrônica – Permite registrar ocorrência online em casos específicos
  5. Defensoria Pública – Oferece assistência jurídica gratuita
  6. Centros de Referência da Mulher (CRAM) – Acolhimento psicológico, social e orientação jurídica

O governador Tarcísio de Freitas ressaltou a complexidade do desafio: "É um problema super complexo, de caráter institucional. A única forma de termos sucesso é unir todos os órgãos e tornar isso prioridade. Temos que fazer com que os homens aprendam a lidar com frustrações, aprendam a receber um 'não'. Esse é o nosso grande desafio".