Uma mulher de 33 anos, auxiliar de escritório, denuncia que sofre perseguição e ameaças de um ex-colega de trabalho há quase dez anos, em Teresina. O suspeito, identificado pelas iniciais J. da S. N., foi preso na noite de terça-feira (19) no bairro Lourival Parente, Zona Sul da capital piauiense. Segundo a vítima, já foram registrados 24 boletins de ocorrência contra o homem.
De acordo com a Polícia Militar do Piauí, o suspeito já havia sido preso em 2025 por descumprir uma medida protetiva que determinava o afastamento da vítima. Durante a abordagem mais recente, os policiais apreenderam o celular do suspeito, que foi levado à Central de Flagrantes de Teresina, onde prestou depoimento e aguarda audiência de custódia.
Relato da vítima
A mulher, que preferiu não se identificar, contou ao g1 que a perseguição começou em 2016, quando passou a trabalhar na mesma empresa que o homem. O comportamento dele teria se tornado agressivo em 2017, com chutes em objetos no ambiente de trabalho e ameaças de morte. “Ele me ameaçou de morte dentro da empresa e foi demitido, aí criou mais raiva de mim. Vem me perseguindo até hoje”, afirmou.
Mesmo após a demissão, as perseguições continuaram. A auxiliar passou a frequentar delegacias para registrar ocorrências e buscar proteção. “Durante esses dez anos, vivi dentro da delegacia, fazendo boletins, correndo, querendo que a Justiça seja feita para ter minha liberdade de volta”, disse.
Vítima passou a gravar vídeos
Para se proteger, a mulher começou a gravar vídeos quando o suspeito aparecia no trabalho ou a seguia na rua. Em um registro de novembro de 2024, ela retornava ao trabalho após afastamento e foi surpreendida pelo homem, que disse: “bom te ver depois de tanto tempo”. Ela relatou: “Ele estava atrás de um poste, quando dei fé, veio para cima de mim, entrei desesperada no portão da empresa”.
Em outro vídeo, a vítima mostra que foi seguida ao sair para uma farmácia. Ela acionou a polícia, mas não houve atendimento na hora. Ao todo, foram 24 boletins de ocorrência, sendo 11 apenas na Zona Sul de Teresina. A mulher afirma que o caso se arrasta sem solução, causando medo constante, dificuldades para dormir e necessidade de acompanhamento psiquiátrico.
Casos recentes
Os episódios mais recentes ocorreram em 6 e 12 de novembro. No primeiro, a vítima saía do trabalho por volta das 17h42, na Zona Sul, quando o suspeito se aproximou por trás e sacudiu a moto em que ela estava. Ela gritou por socorro, mas ninguém ajudou. No dia seguinte, procurou a Casa da Mulher Brasileira e registrou boletim por perseguição.
Na terça-feira (12), a auxiliar retornou à delegacia após nova ameaça: o suspeito enviou mensagem a uma prima dizendo “ela vai morrer”. O caso foi registrado como ameaça. A vítima desabafou: “Ninguém ajuda ninguém nessa situação. Gritei por socorro, e ninguém me ajudou. Durante dez anos, fiz tudo dentro da lei e vou continuar”.
Processos e atuação do Ministério Público
O g1 apurou que, entre 2019 e julho de 2025, foram abertos pelo menos oito processos relacionados ao caso. Parte foi arquivada, e ao menos um segue em tramitação, com possibilidade de transação penal. O Ministério Público do Piauí (MPPI), por meio do Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navi), informou que passou a adotar medidas de acolhimento, escuta qualificada e acompanhamento psicossocial da vítima, além de articulação institucional com promotorias e levantamento de processos.
A Polícia Civil, por meio da Casa da Mulher Brasileira, não deu detalhes sobre o caso, afirmando que as investigações estão em curso.
Crescimento de casos de perseguição no Piauí
Dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025) mostram que o número de mulheres vítimas de perseguição cresceu 28% no Piauí em 2024, com 1.342 casos registrados, contra 1.045 em 2023. A taxa chegou a 77,8 casos por 100 mil mulheres. As ameaças também seguem elevadas: 14.265 mulheres foram vítimas desse crime no estado em 2024.
O descumprimento de medidas protetivas aumentou 20,6% em 2024, com 1.512 casos registrados. Os dados reforçam a necessidade de fortalecimento da rede de proteção às mulheres no estado.



