Mulheres do Acre criam rede de apoio para vítimas de violência de gênero em encontros acolhedores
Mulheres do Acre criam rede de apoio para vítimas de violência

Mulheres do Acre transformam dor em força através de encontros de acolhimento

No coração do Acre, um movimento silencioso mas poderoso está mudando vidas. Um grupo de mulheres se reúne regularmente no espaço chamado Recanto Amorim, criando um ambiente seguro e acolhedor para vítimas de violência de gênero. A iniciativa, que vai muito além de simples conversas, oferece um porto seguro onde experiências podem ser compartilhadas sem julgamento e onde a reconstrução pessoal se torna possível.

Da necessidade pessoal à rede coletiva

Belívan Amorim, idealizadora do projeto, explica que a iniciativa nasceu de uma necessidade profunda: criar uma rede de apoio para mulheres que, como ela, enfrentaram relacionamentos abusivos. Atualmente com mais de 30 participantes, o grupo representa um farol de esperança em um estado que registra números alarmantes de violência contra mulheres.

"A mulher tem que ser vista como ser capaz de construir, reconstruir", afirma Belívan, que sobreviveu a um relacionamento marcado por controle constante e ameaças. "Por mais que, muitas vezes, seja comparada com uma toalha cheia de retalhos, também pode ser uma estampa colorida, renovada e capaz de construir muitas coisas".

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Contexto alarmante no Acre

Os encontros ganham ainda mais relevância quando observamos os dados oficiais. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em 2025 o Acre registrou 14 feminicídios, quatro deles na capital Rio Branco. O estado possui a maior taxa proporcional do país, tornando iniciativas como o Recanto Amorim não apenas importantes, mas urgentes.

Belívan compartilha sua própria jornada: "Não é apenas ficar trancada, se curvar e achar que não tem os seus direitos. Aqui estou: uma mulher que sobreviveu das cinzas, porque me encontrei sem comunicação, não podia mais conversar, e também por amor aos meus filhos. Eu encontrei o refúgio nos meus filhos".

Metodologia que transforma

Os encontros seguem uma abordagem cuidadosamente planejada. Em uma edição recente, o tema foram trajes com estampas que contam histórias - cada padrão carregando significados pessoais de recomeço, liberdade ou superação. Luci de Almeida, uma das organizadoras, explica que o ambiente exclusivamente feminino ajuda a criar confiança e estabelecer laços genuínos de apoio.

"Nosso grupo está ajudando muitas mulheres a poder se abrir, conversar, se expor", afirma Luci. "Tem muitas que sofrem violência calada e o nosso grupo ajuda bastante, pois vamos conversando umas com as outras. É muito bacana ver como esse encontro está sendo transformador".

Resultados visíveis e esperança renovada

Os efeitos dos encontros são tangíveis. Belívan observa mudanças significativas nas participantes: "Antes de terminar o encontro, elas já pedem para que venha o outro. E vejo que se, às vezes, chegam cabisbaixas, acabam entrando no embalo da festa e vejo que o semblante muda, tanto no olhar como no seu modo de pensar".

O grupo também funciona como espaço de conscientização, ajudando mulheres a identificar formas de violência que muitas vezes passam despercebidas na rotina doméstica ou nos relacionamentos.

Marco legal no combate ao feminicídio

Enquanto iniciativas comunitárias florescem, mudanças legislativas também buscam enfrentar o problema. Em outubro de 2024, o governo federal sancionou lei que endurece significativamente as penas para feminicídio. A nova legislação estabelece:

  1. Punição de 20 a 40 anos de prisão
  2. Agravantes para casos com vítimas grávidas, menores de 14 anos ou maiores de 60
  3. Crime considerado hediondo
  4. Tramitação prioritária nos processos judiciais
  5. Pena de 5 anos para violência doméstica
  6. Aumento de 1/3 na pena por descumprimento de medida protetiva

Canais de denúncia e apoio

Para mulheres em situação de risco no Acre, diversos canais estão disponíveis:

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  • Polícia Militar do Acre: (68) 99609-3901, (68) 99611-3224, (68) 99610-4372, (68) 99614-2935
  • Polícia Militar - 190 (risco imediato)
  • Samu - 192 (socorro urgente)
  • Delegacias especializadas ou qualquer delegacia
  • Secretaria de Estado da Mulher (Semulher): (68) 99930-0420
  • Disque 100 (denúncias anônimas de direitos humanos)
  • Profissionais de saúde (notificação compulsória)
  • WhatsApp do Ministério da Mulher: (61) 99656-5008

O Recanto Amorim representa mais que um grupo de apoio - é um testemunho da resiliência feminina e da capacidade de transformar dor coletiva em rede de solidariedade. Enquanto os números de violência permanecem alarmantes, iniciativas como esta mostram que a mudança começa na comunidade, no acolhimento e na coragem de romper o silêncio.