Mães de vítimas de feminicídio em Campinas transformam dor em cuidado dos netos
A dor da perda se transformou em responsabilidade dupla para duas mães de Campinas que perderam suas filhas em casos brutais de feminicídio. Enquanto enfrentam o luto diário, elas assumem os papéis de mãe, pai, avó e avô para os netos órfãos, encontrando na rotina exaustiva uma razão para continuar vivendo.
Mariza dos Santos: "Sou tudo para meus netos"
Desde setembro de 2025, a vida de Mariza dos Santos mudou completamente. Sua filha única, Larissa dos Santos Silva, foi assassinada a tiros pelo marido quando chegava do trabalho, na frente dos quatro filhos do casal. "Sou a mãe deles, a avó, pai, o vô, tudo sou eu. É uma correria… Leva um, busca o outro, põe no carro, tira do carro. Mas isso ajuda a continuar. Se eu não tivesse eles, eu não continuaria", desabafou Mariza.
Larissa, nascida em 12 de junho de 1996, era descrita pela mãe como "uma menina muito doce, muito boa… A melhor filha do mundo". Ela conheceu Bruno William da Silva ainda adolescente, aos 13 anos, e permaneceu com ele por 16 anos de relacionamento marcado por violências constantes.
"Sempre teve muitas violências. Busquei ela várias vezes no Hospital Ouro Verde, machucada dele. Ele prometia que ia mudar, e ela acreditava", revelou Mariza sobre o histórico de agressões.
Na madrugada do crime, segundo relatos, Bruno estaria com ciúmes porque Larissa trabalhava como atendente durante a madrugada. Quando ela abriu o portão de casa, levou um tiro no peito. Tentou fugir, mas foi atingida novamente nas costas. O marido se entregou à polícia uma semana depois e está preso há cinco meses, com o processo correndo em segredo de Justiça.
Sueli Oliveira Silva: "Queria minha filha de volta"
Em outubro do mesmo ano, outra tragédia familiar abalou Campinas. Camila Oliveira Silva, de 33 anos, foi atropelada três vezes pelo ex-companheiro, Edenísio Júlio Teixeira, no Jardim Novo Maracanã. "Eu faço muita oração e peço a Deus todos os dias para me fortalecer. Eu queria minha filha de volta", disse Sueli, mãe de Camila.
O relacionamento de quase 20 anos entre Camila e Edenísio era marcado por controle excessivo e brigas constantes. "Ele fazia dela o que ele queria. Ela ia trabalhar, ele ia buscar. Tudo ele estava atrás", contou a mãe sobre o comportamento do agressor.
Dois meses após a separação, quando Camila começou um novo namoro, a perseguição aumentou drasticamente. No dia 17 de outubro, câmeras registraram Edenísio furando quatro pneus do carro da ex-companheira no local de trabalho dela. Apesar dos alertas da família, no dia seguinte ele executou Camila na rua onde ela morava.
"Ele ficou a manhã inteira atrás dela. Até que ela saiu da porta… ele passou o carro em cima dela. Três vezes", relatou Sueli sobre os momentos finais da filha.
Transformando o luto em alerta
Ambas as mães enfrentam agora a dupla jornada de processar seu próprio luto enquanto criam os netos órfãos. Sueli tenta transformar sua dor em conscientização sobre a violência doméstica: "Cada dia é mais e mais mulher morrendo. Sai fora, porque eles não pensam duas vezes para fazer igual fez com a minha filha".
Edenísio está preso há quatro meses, com seu processo também sob segredo de Justiça. As duas histórias se entrelaçam em um retrato sombrio da violência contra mulheres na região de Campinas, onde relacionamentos abusivos de longa data terminaram em tragédias irreparáveis.
As avós agora carregam não apenas a memória das filhas perdidas, mas também a responsabilidade integral pelo futuro de sete crianças que testemunharam ou foram impactadas diretamente pela violência extrema. Sua rotina diária tornou-se um testemunho silencioso da resiliência feminina diante da brutalidade, enquanto o sistema judicial processa os casos em sigilo.
