Médica vítima de assédio em estádio exige punição e reafirma amor pelo esporte
Dois dias após sofrer assédio sexual por parte de torcedores dentro do Estádio Palma Travassos, em Ribeirão Preto, a médica Bianca Francelino declarou, na segunda-feira (9), que não pretende abandonar sua atuação profissional no ambiente esportivo. O episódio ocorreu no sábado (7), véspera do Dia da Mulher, durante a partida entre Comercial e Nacional-SP, válida pela nona rodada da Série A4 do Campeonato Paulista.
Em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo, Bianca revelou que ouviu palavras ofensivas e de cunho sexual durante toda a partida. "Gritavam 'doutora gostosa' o tempo inteiro. 'Doutora gostosa, vem aqui me examinar', 'doutora gostosa, estou com uma dor aqui', apontando para parte íntima", relatou a profissional, que prestava assistência ao time visitante. Ela ainda destacou que os torcedores sugeriram que, se não estava gostando, não deveria estar em campo.
Resposta das autoridades e do clube
O Comercial emitiu nota repudiando o assédio e informou que um dos torcedores já foi identificado. A Federação Paulista de Futebol (FPF) comunicou que o caso foi encaminhado às autoridades e que os responsáveis serão punidos rigorosamente. De acordo com a federação, a árbitra acionou o protocolo previsto no tratado pela diversidade e contra a intolerância no futebol paulista, e a médica recebeu apoio adequado.
A súmula da partida, documento oficial da arbitragem, registra que a árbitra Ana Caroline D'Eleutério foi informada pelo quarto árbitro sobre o relato do técnico do Nacional-SP, Tuca Guimarães. Segundo o técnico, um torcedor teria segurado e apontado a genitália em direção à médica, gerando início de discussão entre membros da comissão técnica e torcedores.
Reação do companheiro e intervenção policial
O namorado de Bianca, o educador físico Paulo Galvão, e o pai dele estavam na arquibancada e testemunharam o assédio. Paulo relatou que, ao tentar intervir, foi ameaçado por um dos torcedores. "Vi que ele já estava passando do ponto. No momento que eu vou descer, ele está dando cusparada no campo e aí eu chego e ele já estava falando bastante groselha", contou.
Ele ainda detalhou que a Polícia Militar, ao chegar ao local, tentou retirar ele e o pai do estádio, em vez do torcedor que proferia as ofensas. "A polícia chegou, acabou separando. Mas eles queriam retirar eu e meu pai de campo. Eu tentei passar o que estava acontecendo, que eu estava tentando só pedir um pouco de respeito para minha namorada", explicou Paulo, que afirmou ter saído do alambrado para evitar maiores confusões.
Possíveis punições para clube e torcedores
O advogado Vitor Silva Muniz, presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB de Ribeirão Preto, explicou que o Comercial pode ser responsabilizado pelas atitudes dos torcedores e receber multa de até R$ 100 mil. Os torcedores envolvidos poderão ser proibidos de entrar no estádio por no mínimo 720 dias.
"O ato, conforme foi narrado, pode ser enquadrado no artigo 243 G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva e esse artigo prevê punições para o clube e para o torcedor identificado", afirmou Muniz. Ele ressaltou que o clube é responsável por fiscalizar e proibir a entrada de torcedores punidos, sob risco de novas penalidades.
Determinação da médica em continuar no esporte
Bianca Francelino demonstrou resiliência ao afirmar que o episódio não a desanima. "Isso não me desanima, porque eu tenho a paixão pelo esporte. É onde eu quero atuar e, de forma alguma, isso me cala, me desanima ou qualquer coisa do tipo", declarou. Ela acrescentou que a situação isolada não reflete o espírito de união do esporte e não a fará desistir de prestar serviços na área.
O caso ocorre em um contexto onde mulheres na região de Ribeirão Preto sofrem, em média, 13 violências por dia, conforme aponta painel local, abrangendo abusos físicos, psicológicos, sexuais e morais.



