Experimento testa reconhecimento de sinal silencioso de socorro em Guaíba
Um experimento social realizado nas ruas do centro de Guaíba, na Região Metropolitana de Porto Alegre, trouxe à tona uma realidade preocupante: a maioria da população ainda não reconhece o sinal universal de socorro, um gesto silencioso criado para que mulheres em situação de violência possam pedir ajuda discretamente. A iniciativa, organizada pela prefeitura municipal, teve como objetivo principal conscientizar e educar os moradores sobre essa ferramenta crucial de proteção.
O gesto que pode salvar vidas
O sinal consiste em um movimento específico e discreto: levantar a mão com a palma voltada para fora, dobrar o polegar e, em seguida, fechar os outros dedos sobre ele. Este gesto foi desenvolvido durante a pandemia por uma fundação canadense de apoio às mulheres, permitindo que vítimas solicitem auxílio sem alertar seus agressores.
Resultados alarmantes do teste prático
Durante mais de uma hora de experimento, dois atores simularam a situação de um casal em vias públicas. Em momentos estratégicos, a mulher executava o gesto de socorro. Aproximadamente vinte pessoas foram abordadas indiretamente pela cena, mas apenas duas mulheres pararam para oferecer ajuda efetiva.
Magali Ferreira, terapeuta que interpretou a vítima durante a ação, relatou ter ficado emocionada com a atitude das duas mulheres que a abordaram. "Foi muito emocionante, eu não pensei que ia me emocionar tanto. Naquele momento ali teve um acolhimento", disse Magali. "Elas foram ali e me convidaram para tomar um café, que era uma maneira de, de repente, me tirar dali."
Contexto trágico que motivou a ação
A iniciativa em Guaíba ganhou urgência após a cidade registrar o primeiro feminicídio do Rio Grande do Sul em 2026. No dia 3 de janeiro, a bombeira civil Gislaine Duarte, de 31 anos, foi morta a facadas pelo ex-companheiro. Este caso encerrou um período de três anos sem registros de feminicídio no município.
A prefeita em exercício de Guaíba, Claudinha Jardim, explicou a importância da conscientização: "O objetivo, na verdade, é conscientizar, educar, informar a população que há várias formas de se pedir auxílio. Uma das formas é um sinal silencioso, mas será que as pessoas conhecem esse sinal? Elas sabem o que fazer?"
Como agir ao identificar o sinal
Especialistas em enfrentamento à violência contra mulheres destacam que, embora o gesto seja uma ferramenta valiosa, ele não substitui a necessidade de políticas públicas robustas de proteção. Thaís Pereira Siqueira, coordenadora do Coletivo Feminino Plural, orienta sobre a abordagem adequada:
- Aproxime-se discretamente e inicie uma conversa casual, como "Oi, tudo bem? Quanto tempo a gente não se vê?"
- Tente conduzir a mulher para um local seguro, como um comércio ou farmácia
- Ofereça apoio para encaminhá-la aos órgãos competentes, como delegacia ou Brigada Militar
- Caso não seja possível uma aproximação direta, procure imediatamente uma autoridade policial e relate a situação
A divulgadora Roselaine Silva reforça a importância da intervenção: "Hoje em dia não é mais aquela de 'em briga de marido e mulher não se mete a colher', tem que meter sim! Se eu vejo, eu chamo a polícia."
Alerta comunitário e responsabilidade coletiva
A prefeita em exercício Claudinha Jardim alerta que os casos de violência doméstica tendem a aumentar em períodos específicos: "Esses casos de violência sempre acontecem em maior número nos feriados, nos finais de semana, em dia de jogo de futebol. Então a gente precisa cada vez estar mais alerta."
O experimento em Guaíba serve como um importante lembrete de que a omissão diante de situações de violência pode colocar vidas em risco. Reconhecer e saber como responder ao sinal universal de socorro é um passo fundamental na construção de uma rede de proteção mais eficaz para mulheres em situação de vulnerabilidade.