Gisèle Pelicot revela em livro detalhes chocantes de abusos e descoberta sobre marido
Gisèle Pelicot detalha abusos e crimes do marido em livro

Autora francesa expõe em livro detalhes de abusos e descoberta sobre passado criminoso do marido

Os primeiros trechos do livro "Et la joie de vivre" – que será lançado mundialmente como "Um Hino à Vida" em português – foram divulgados pelo jornal Le Monde nesta terça-feira (11). A obra de Gisèle Pelicot, programada para lançamento global em 17 de fevereiro em impressionantes 22 idiomas, traz um relato em primeira pessoa sobre o trauma de abusos sexuais e descobertas chocantes sobre o passado do marido.

O pedido por transparência e o julgamento público

O caso de abuso sexual sofrido por Pelicot ganhou notoriedade internacional principalmente após seu pedido para que o julgamento fosse realizado de forma pública em 2024. Em seus escritos, a autora revisita o julgamento de Avignon, no sudeste da França, que repercutiu globalmente pela gravidade dos crimes, número de acusados e pela inédita solicitação de audiência pública.

"Quando penso no momento em que tomei minha decisão, digo a mim mesma que, se tivesse vinte anos a menos, talvez não tivesse ousado recusar o julgamento fechado", confessa Pelicot em um dos trechos publicados. "Eu temeria os olhares, esses olhares malditos com os quais uma mulher da minha geração sempre teve de lidar."

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O choque da descoberta e a negação inicial

No livro escrito em parceria com a jornalista e romancista Judith Perrignon, Pelicot descreve com crueza o momento em que descobriu na delegacia as fotografias dos estupros sob submissão química, ocorridos no outono de 2020.

"Vou lhe mostrar fotos e vídeos que não vão lhe agradar", teria dito o investigador Laurent Perret, responsável pelo caso. O policial apresentou à mulher várias imagens dela, imóvel, sendo violentada por diferentes homens. "Eu não reconhecia aqueles indivíduos. Nem aquela mulher. A bochecha tão flácida. A boca tão mole. Era uma boneca de pano", relata.

Mesmo com o policial insistindo que as imagens eram reais – "É o seu quarto. São mesmo os seus abajures, não é?" –, Pelicot permaneceu em estado de choque e negação: "Não sou eu, inerte nesse leito. Isso é uma montagem. Obra de alguém que quer prejudicar Dominique."

A escala dos crimes e o desmoronamento de uma vida

O relato se torna ainda mais perturbador quando a autora menciona a escala dos abusos: "Cinquenta e três homens teriam ido à nossa casa para me violentar". Uma psicóloga foi imediatamente chamada, mas Pelicot afirma que não precisava dela, ainda acreditando na felicidade de quase 50 anos de casamento.

"Eu tinha certeza da minha felicidade, da nossa felicidade. Quase 50 anos de casamento e a lembrança intacta do nosso encontro. O sorriso dele. O olhar tímido. Os longos cabelos cacheados até os ombros. O suéter listrado. Ele iria me amar. Meu cérebro parou ali, na sala do oficial Perret", descreve emocionada.

As revelações sobre crimes antigos do marido

Dois anos após a descoberta inicial, Pelicot recebeu uma ligação que destruiria completamente sua percepção sobre o marido. Um policial da divisão de "cold cases" de Nanterre informou que Dominique Pelicot era suspeito do assassinato de Sophie Narme em Paris em 1991 – crime no qual ele nega envolvimento – e da tentativa de estupro de uma jovem em 1999 na região metropolitana parisiense, que ele admitiu.

"Cada palavra que ele pronunciaria, naquele mês de outubro de 2022, iria terminar de destruir minha vida", escreve Pelicot. "Ele falou de casos antigos não resolvidos, de uma tentativa de violação, mas também de um assassinato. Mencionou os anos 1990. Disse os nomes das vítimas, eu não consegui retê-los."

A autora conta ter ficado "entorpecida, incapaz de ficar de pé" ao ouvir que Dominique Pelicot, com quem ainda era casada, era o principal suspeito dos dois crimes. Quinze dias após a ligação, dois policiais foram interrogá-la, revelando uma investigação que descrevia "um predador sexual à caça" e "jovens transformadas em presas".

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Gisèle Pelicot dará sua primeira entrevista na TV francesa nesta quarta-feira (12) para comentar o livro e suas experiências, marcando um importante momento de visibilidade para casos de violência sexual e manipulação em relacionamentos de longa duração.