Caso Gisèle Pelicot: Francês que dopava esposa para estupros é condenado a 20 anos
Importante: esta reportagem contém relatos de estupro e violência sexual que podem ser perturbadores para alguns leitores.
Gisèle Pelicot, a mulher no centro do maior julgamento sobre estupro na França, declarou ao programa de televisão Newsnight, da BBC, que ficou "devastada pelo terror" ao descobrir que seu marido a drogou repetidamente por anos para deixá-la inconsciente e convidar dezenas de homens para estuprá-la. Com 73 anos atualmente, a sra. Pelicot descreve que "algo explodiu dentro de mim" quando percebeu a escala dos crimes cometidos pelo seu cônjuge, comparando o momento a um tsunami emocional.
Descoberta traumática e revelações chocantes
Em uma extensa entrevista realizada antes da publicação das suas memórias, "Um Hino à Vida", que será lançado no Brasil no final de fevereiro pela Editora Companhia das Letras, ela relembra que telefonar para seus três filhos adultos para contar a verdade sobre o pai deles foi a experiência mais difícil da sua vida. Gisèle Pelicot decidiu abrir mão do seu direito legal ao anonimato, uma escolha da qual nunca se arrependeu, e ainda possui questões não respondidas que gostaria de fazer ao ex-marido na prisão, onde ele cumpre sentença de 20 anos.
O ponto de virada ocorreu quando acompanhou o marido, Dominique Pelicot, a uma delegacia de polícia em Mazan, no sul da França, onde ele foi intimado por filmar secretamente embaixo de saias de mulheres em um supermercado. Um policial a levou para um local reservado e mostrou duas imagens de uma mulher desacordada em uma cama, entre milhares de fotos e vídeos que o marido havia registrado. "Não me reconheci", conta ela. "Aquela mulher estava deitada como se estivesse morta. Havia homens ao lado dela que eu nunca havia visto."
A polícia informou que ela havia sido repetidamente estuprada por dezenas de homens, com os vídeos dos crimes claramente rotulados e catalogados em um disco rígido. Muitos dos agressores nunca foram identificados. Após cinco horas de interrogatório, Gisèle finalmente usou a palavra "estupro" para definir os atos do sr. Pelicot.
Impacto devastador na família
Os três filhos do casal — David, Caroline e Florian — também foram profundamente afetados pelas revelações. Gisèle Pelicot descreve a reação da filha Caroline: "Ouvi minha filha gritar. Era quase desumano, aquele grito." Os filhos viajaram para ficar com ela no dia seguinte e, desde então, destruíram ou jogaram fora pertences da família, desde móveis até álbuns de fotografias, na tentativa de eliminar a existência do pai.
A maternidade sempre foi central na vida de Gisèle, que perdeu a mãe, o irmão e o pai ainda jovem. Conhecer Dominique Pelicot, então com 19 anos e também marcado por uma infância difícil, representou a possibilidade de recomeçar. Eles se casaram em 1973 e formaram uma família. "Estávamos muito apaixonados e mergulhamos na vida", relembra ela com voz firme.
Anos de abuso e traição inconcebível
A partir de 2011, Gisèle começou a sofrer perda de memória e problemas ginecológicos persistentes, que posteriormente foram atribuídos aos sedativos administrados pelo marido e aos estupros repetidos, que ocorriam diversas vezes por semana. "Era inconcebível que aquele homem com quem compartilhei minha vida pudesse ter cometido aqueles horrores", afirma. "Eu me levantava, tomava o café da manhã e ele me olhava nos olhos. E eu não sabia como ele havia me traído por tantos anos."
Além das drogas, ele também lhe dava poderosos relaxantes musculares para que não sentisse dor no dia seguinte. Agora, ela acredita que seu corpo abusado estava perto de se entregar e sua sobrevivência estava em risco. "É difícil para mim reconhecer que ele não tinha piedade", confessa.
Decisão corajosa de abrir o julgamento
Inicialmente, Gisèle Pelicot queria manter o anonimato e um julgamento a portas fechadas, como é direito das vítimas de estupro na França. Porém, quatro meses antes do início do processo, enquanto caminhava na praia, ela percebeu que uma audiência fechada beneficiaria os réus com anonimato e a deixaria em minoria contra 51 homens e 40 advogados. "Carreguei esta vergonha por mais de quatro anos", conta. "E senti que era uma dupla punição para as vítimas."
Ela precisou de apenas uma noite para decidir abrir o julgamento ao público e à imprensa. "Nunca me arrependi da minha decisão, nem por uma vez", afirma. "Era também uma mensagem para as vítimas que não ousavam fazer o mesmo... Poderia dar a elas um pouco da força que encontrei em mim."
Julgamento histórico e condenações
Em 2024, o julgamento de Dominique Pelicot ocorreu em plena vista da França e do mundo. Gisèle demonstrou "força inacreditável" ao enfrentar quatro meses de insinuações e acusações de cumplicidade no tribunal de Avignon. Uma multidão de mulheres se reunia do lado de fora para apoiá-la, e até a rainha Camilla do Reino Unido enviou uma carta pessoal expressando admiração.
Os sete juízes rejeitaram os argumentos de defesa e consideraram todos os réus culpados. Dominique Pelicot recebeu a sentença máxima de 20 anos de prisão, enquanto os outros 50 homens foram condenados a penas que variaram de cinco a 15 anos.
Reconstrução e novas perspectivas
Após o julgamento, Gisèle Pelicot se mudou para a tranquila Île de Ré, onde conheceu Jean-Loup, um viúvo com quem formou um novo relacionamento. "Tivemos este golpe de sorte", diz ela. "Nós nos apaixonamos como adolescentes, quando nenhum de nós esperava."
Ela ainda pretende visitar o ex-marido na prisão para perguntar sobre o que fez à filha Caroline e sobre um caso de assassinato no qual ele está envolvido. "Preciso encontrá-lo para ter respostas. Não sei se as terei, mas preciso olhar para ele, olho no olho", declara.
Gisèle Pelicot resiste à ideia de rejeitar totalmente os 50 anos que passou com o ex-marido. "Para poder viver, precisei pensar que os 50 anos que passei com o sr. Pelicot não foram apenas uma mentira", explica. "Porque, se não fosse assim, seria como se eu estivesse morta. Como se eu não existisse mais."
Ela conclui com uma reflexão poderosa: "Na vida, você sempre precisa escolher, decidir qual caminho seguir. Existe o caminho certo e o errado. Em relação a mim, sempre escolhi andar na direção do bem."



