Feminicídios em Pernambuco: aumento de 15% em 2025 e alerta sobre misoginia
Feminicídios crescem 15% em Pernambuco; socióloga analisa misoginia

Feminicídios em Pernambuco: aumento alarmante e análise sociológica

Em março deste ano, durante o Mês da Mulher, dois casos de feminicídio chocaram Pernambuco com menos de 24 horas de diferença. No Recife, Isabel Cristina, de 22 anos, foi assassinada dentro do seu apartamento pelo ex-companheiro, que depois cometeu suicídio. Em Goiana, na Zona da Mata, Andreza dos Anjos, de 27 anos, foi morta a facadas pelo marido após um relacionamento de 12 anos. Esses crimes, embora desconectados, escancaram uma ferida social persistente: o ódio contra as mulheres.

Aumento de 15% nos feminicídios em 2025

Segundo dados da Gerência Geral de Análise Criminal e Estatística da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco, o estado registrou um crescimento de 15% nos feminicídios em 2025, com 88 mulheres mortas em crimes relacionados à sua condição de gênero. Este é o maior número de vítimas dos últimos oito anos. Em 2026, apenas nos meses de janeiro e fevereiro, 18 mulheres foram vítimas de feminicídio, repetindo o mesmo período do ano anterior.

Além disso, a violência doméstica apresenta um cenário preocupante: Pernambuco teve uma média diária de 137 registros nos dois primeiros meses de 2026. A socióloga Liana Lewis, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avalia que o feminicídio é resultado do comportamento de homens que não aceitam as mulheres questionando o lugar imposto a elas na sociedade.

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Misoginia: o ódio letal contra as mulheres

"O que tem levado ao aumento do feminicídio é o que a gente tem chamado de 'ressentimento'. A gente observa um reposicionamento da mulher na sociedade. Esse ódio, essa tentativa de aniquilar a mulher, é uma resposta a um movimento positivo de reposicionamento. É o homem percebendo que a mulher não aceita mais esse lugar de submissão", explicou Liana Lewis.

A socióloga destaca que a misoginia, termo que significa ódio às mulheres, é uma derivação mais perigosa e letal do machismo. Enquanto o machismo estrutura a sociedade para priorizar homens, a misoginia representa um desprezo violento. Recentemente, o Senado aprovou um projeto de lei que equipara a misoginia ao racismo, prevendo penas maiores para crimes de ódio contra mulheres. O projeto segue para análise da Câmara dos Deputados.

Medidas protetivas e desafios na proteção

Em Pernambuco, 16.657 pedidos de medidas protetivas foram feitos em 2025, e 4.051 nos dois primeiros meses de 2026. No entanto, um levantamento do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) revelou que 99% dos municípios pernambucanos não possuem protocolo de atendimento para mulheres vítimas de violência, com falta de articulação entre órgãos e serviços insuficientes.

A delegada Larissa Souza, adjunta da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, observa que a visibilidade dos casos tem estimulado denúncias de descumprimento de medidas protetivas. "A gente já notou uma preocupação maior para registro de descumprimentos. E aí a polícia pode agir fazendo um flagrante ou representando pela prisão do agressor", afirmou.

Tecnologia e abrigamento: ferramentas de combate

As medidas protetivas incluem afastamento, proibição de contato e uso de tornozeleira eletrônica pelo agressor, monitorada pelo Centro de Monitoramento de Pessoas (Cemep). O botão de pânico, dispositivo portátil para vítimas, complementa a proteção, mas sua adoção é baixa. A advogada Fabiana Leite defende que ambos os dispositivos devem ser concedidos imediatamente para garantir segurança eficaz.

Pernambuco conta com quatro casas-abrigo para mulheres sob ameaça de morte, oferecendo alimentação, terapia e orientação jurídica, inclusive para crianças que acompanham suas mães. A neurocientista Diana Lemos explica que a violência doméstica provoca mudanças neurológicas nas vítimas, afetando áreas cerebrais como a Broca, responsável pela fala, o que dificulta a elaboração de narrativas sobre o trauma.

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Como denunciar e buscar ajuda

Mulheres vítimas de violência em Pernambuco podem buscar atendimento em locais como o Centro de Referência Clarice Lispector no Recife, que funciona 24 horas. As denúncias podem ser feitas através de:

  • Telefone 180 (Central de Atendimento à Mulher, 24 horas);
  • Polícia Militar pelo 190, em casos de crime em andamento;
  • Disque-Denúncia da Polícia Civil no Grande Recife: (81) 3421-9595;
  • Ministério Público de Pernambuco: 0800.281.9455 (segunda a sexta, 12h-18h);
  • Ouvidoria da Mulher de Pernambuco: 0800.281.8187.

O combate à misoginia e ao feminicídio exige um esforço coletivo, com educação desde cedo e políticas públicas eficazes. Como aponta Liana Lewis, "trabalhar nas escolas é crucial para universalizar a prevenção, não ficando à mercê da cultura particular de cada família".