Crianças gravam tortura por jogo online e levam à prisão de pai e madrasta em Campinas
Um caso chocante de violência doméstica em Campinas, no interior de São Paulo, teve um desfecho judicial após três crianças conseguirem registrar as agressões sofridas durante seis anos através de um jogo online. As gravações foram fundamentais para a condenação do pai, Marcelo Melo Dias, de 40 anos, e da madrasta, Aline Fonseca Castilho, que praticavam torturas sistemáticas contra os menores.
Gravações revelam ameaças e violência extrema
Os áudios obtidos pelos promotores do Ministério Público revelam um cenário de terror vivido pelos irmãos, que na época das denúncias tinham 8, 10 e 13 anos. Em uma das conversas gravadas, após Aline reclamar do comportamento de uma das crianças em relação aos deveres de casa, Marcelo ordena que ela bata no menino. A mulher responde: "Marcelo, se eu bater mais nele, ele desmonta", ao que o homem replica: "Você tem que desmontar ele, você é pai dele".
Em outro trecho, a madrasta afirma ter recebido orientação do companheiro para "dar um murro na cara das crianças toda vez que elas pedirem comida". Nas gravações, o pai se refere aos próprios filhos como animais e aparece participando ativamente das agressões.
Seis anos de tortura sistemática
As investigações apontam que as agressões ocorreram entre outubro de 2015 e julho de 2021, período em que as crianças ficaram sob a guarda do pai após a mãe biológica sofrer um acidente de trânsito que deixou sua saúde debilitada. Segundo os depoimentos dos menores:
- Eles eram espancados com cinto, raquete de choque, chinelo, frigideira e colher de pau
- Sofriam enforcamentos regularmente
- O pai chegou a bater a cabeça de um dos filhos no chão
- Uma das crianças foi levantada pelo pescoço contra a parede
- Apenas os adultos comiam carne, enquanto as crianças recebiam apenas arroz, feijão e ovo
O irmão mais velho relatou que o caçula, diagnosticado com autismo grau 3 de suporte, era submetido a "tortura" específica. Ele frequentemente tentava proteger os irmãos mais novos, mas acabava apanhando ainda mais por causa disso.
Estratégia de sobrevivência através da tecnologia
Um dos momentos mais marcantes do caso ocorreu quando um dos meninos conseguiu participar de uma chamada online junto com a própria mãe, que ouvia tudo à distância. Essa gravação, feita através de um jogo online, tornou-se prova crucial no processo.
As crianças também relataram que o pai ameaçava matá-los caso contassem à mãe sobre as agressões. A situação só mudou em 2021, quando a mãe biológica conseguiu recuperar a guarda unilateral dos filhos.
Condenação e prisão dos agressores
Em 2024, a Justiça condenou Marcelo Melo Dias a 7 anos, cinco meses e 18 dias de prisão em regime fechado. Aline Fonseca Castilho recebeu pena de 6 anos de prisão, igualmente em regime fechado.
A madrasta, que estava foragida, foi presa pela Polícia Militar em 13 de fevereiro. O pai das crianças já havia sido detido no início do mesmo mês em Araruama, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro.
Recuperação e nova vida
No processo judicial, os meninos contaram, sorrindo, que gostam "bastante" da vida com a mãe. Eles relataram que saem com ela para restaurantes, parquinhos e também jogam juntos, demonstrando uma recuperação emocional significativa após anos de sofrimento.
O caso serve como alerta sobre a importância dos mecanismos de denúncia e da proteção às crianças em situação de vulnerabilidade familiar, mostrando também como a tecnologia pode ser usada como ferramenta de resistência em situações extremas de violência doméstica.



