Celular de PM morta foi manipulado após tiro; marido, tenente-coronel, é réu por feminicídio
Celular de PM morta foi manipulado após tiro; marido é réu

Celular de soldado da PM foi manipulado após disparo fatal; marido, tenente-coronel, é réu por feminicídio

A análise de dados realizada pela Polícia Civil no celular da soldado Gisele Alves Santana, encontrada baleada na cabeça dentro de seu apartamento no Brás, Centro de São Paulo, em 18 de fevereiro, apontou que o aparelho foi manuseado e desbloqueado minutos após o tiro. Além disso, mensagens foram apagadas pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que foi preso preventivamente em 18 de março e se tornou réu por feminicídio e fraude processual.

Desbloqueios e ligação para o 190 contradizem versão do acusado

Segundo a investigação, o celular de Gisele foi desbloqueado pela última vez às 7h58min18s, com outros acessos registrados às 7h47min29s e 7h49min24s. No entanto, o tenente-coronel já havia ligado para o 190 às 7h54min58s, momento em que a soldado já estava baleada. Uma vizinha relatou ter ouvido um estampido único e forte às 7h28, reforçando a linha do tempo do crime.

Inicialmente, Geraldo Neto afirmou que a esposa cometeu suicídio após uma discussão, mas essa versão foi descartada após laudos periciais indicarem feminicídio. A investigação aponta que ele segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, manipulando a cena para simular suicídio, o que fundamenta a acusação de fraude processual.

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Mensagens apagadas revelam discussões sobre divórcio

A polícia constatou que, no celular do tenente-coronel, não havia conversas com Gisele no dia anterior à morte, 17 de fevereiro. Porém, dados recuperados do aparelho dela mostram o contrário: os dois trocaram mensagens naquele dia, incluindo discussões acaloradas sobre o fim do casamento.

As conversas apagadas e recuperadas pela polícia indicam que a última mensagem de Gisele foi enviada às 23h, dizendo: "Pode entrar com pedido essa semana". Outras mensagens revelam tensões, como: "Vc confundiu carinho com autoridade, amor com obediência, provisão com submissão". Para os investigadores, as exclusões visavam sustentar a versão de que o tenente-coronel seria o responsável pela separação, e não a vítima.

Episódios de agressividade e comportamento controlador no quartel

Policiais militares relataram à Polícia Civil episódios de agressividade do tenente-coronel dentro do quartel. Testemunhas afirmaram que, em uma ocasião, ele segurou Gisele pelos braços e a pressionou contra a parede durante uma discussão. Há ainda relatos de que câmeras de segurança registraram o oficial com as mãos no pescoço da vítima, em um ato descrito como sufocamento.

Antes do casamento, seu comportamento já motivou medidas internas, incluindo um afastamento temporário após uma discussão considerada mais agressiva. Após o matrimônio, ele voltou a frequentar o quartel, e depoimentos apontam um padrão controlador e de ciúmes excessivos. Colegas notaram que Gisele, normalmente extrovertida, ficava calada, reservada e tensa na presença do marido.

Laudos e provas robustas descartam suicídio

O Ministério Público destacou que laudos periciais, reprodução simulada e análise de mensagens confirmam o feminicídio, eliminando a hipótese de suicídio. Gravações de câmeras corporais de policiais militares mostram um embate hierárquico no local do crime, com o tenente-coronel insistindo em circular e permitir limpezas, ações que aumentaram as suspeitas sobre sua versão.

Este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio. O crime, classificado como doloso contra a vida, deve ser julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri, com pena de 20 a 40 anos de prisão, conforme mudanças na legislação de 2024.

Defesa nega crime e questiona competência da Justiça Militar

Em audiência de custódia, Geraldo Neto reiterou que a esposa cometeu suicídio, afirmando: "ela se suicidou com minha arma no meu apartamento". Sua defesa, por meio de nota, nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e alega que o oficial colaborou com as investigações, além de criticar a exposição de sua vida privada.

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O Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou recentemente um pedido de liberdade da defesa, considerando a reclamação incabível. O Tribunal de Justiça Militar justificou a prisão pelo fato de o crime ter sido cometido contra outro membro da corporação, uma soldado que era sua esposa.

O Ministério Público pediu indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares de Gisele em caso de condenação, enquanto a investigação continua a reunir provas para o processo judicial.