Casas-abrigo em Pernambuco oferecem proteção vital para mulheres vítimas de violência doméstica
Casas-abrigo protegem mulheres de violência doméstica em Pernambuco

Casas-abrigo em Pernambuco: refúgio seguro para mulheres em situação de violência doméstica

A violência doméstica e familiar representa um grave problema social que afeta mulheres em todas as esferas da vida – como mães, filhas, irmãs, amigas e trabalhadoras – trazendo consequências devastadoras para toda a sociedade. Diante desse cenário alarmante, vítimas que correm risco iminente de morte buscam locais protegidos e sigilosos, onde nem mesmo suas famílias conhecem a localização: as casas-abrigo.

Proteção integral e sigilosa

Pernambuco conta com quatro casas-abrigo que recebem mulheres sob ameaça de morte, oferecendo um espaço seguro e gratuito para que possam reconstruir suas vidas longe dos agressores. Walkiria Alves, psicóloga e secretária executiva de Políticas para as Mulheres, explica que o acolhimento é abrangente: "Além das técnicas que atuam com elas aqui, no dia a dia, a gente tem as psicólogas, advogada e assistente social. Porque quando ela chega aqui, ela traz muitas demandas. Elas tiveram documentos destruídos, então precisa providenciar a documentação. Precisa providenciar a continuidade de tratamento de saúde".

O serviço inclui alimentação, terapia e orientação jurídica, sendo também pensado para as crianças que acompanham suas mães na fuga da violência. Para ter acesso a essa proteção, as mulheres precisam registrar um boletim de ocorrência e dar entrada no pedido de medida protetiva.

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Resultados positivos e continuidade do apoio

Desde que o serviço foi implementado em 2009, nenhuma mulher acolhida foi vítima de feminicídio em Pernambuco, e a maioria não retoma o relacionamento com o agressor. Walkiria Alves destaca que o apoio não termina quando as mulheres deixam o abrigo: "Quando ela sai daqui, ela não sai sozinha. Para além disso, a gente entra em contato com a rede de enfrentamento que existe nesse estado. Entra em contato, referencia, diz o que já foi feito por ela aqui e o que a gente entende que precisa dar continuidade".

Relatos de horror e esperança

As mulheres acolhidas compartilham experiências aterrorizantes de violência psicológica e física. Uma delas relatou à TV Globo: "Deu vários tapas na minha cara, fiquei zonza. O tempo todo mandou eu tirar minha roupa, passando a faca no meu corpo. Foi uma cena de terror que eu passei". Outra vítima expressou seu alívio ao descobrir a existência das casas-abrigo: "Eu não sabia que isso daqui existia. Se eu soubesse que isso daqui existia, eu teria me saído há mais tempo. Achava que não sairia com vida".

Padrão de violência escalonada

Aryella da Silva, representante do Fórum de Mulheres de Pernambuco, descreve a violência como uma escalada: "É uma escalada. A gente entende que ela começa com questões sutis, achando que é um cuidado. Mas com o decorrer do tempo vem a manipulação, vem a imposição, e quando não se atende a essa imposição, a mulher sofre várias violências". Walkiria Alves complementa, explicando que o controle começa com detalhes aparentemente simples, como restrições sobre roupas, maquiagem ou cortes de cabelo, evoluindo para isolamento e medo.

Famílias também sob ameaça

A situação de violência frequentemente envolve ameaças a familiares e amigos, criando um ciclo de medo que impede as vítimas de denunciar. Uma mulher relatou: "Se eu fosse para um lugar, ele fazia de tudo para me encontrar e aí começava as ameaças. Ameaçava meus irmãos, que ia matar meus irmãos, como se eu fosse uma posse dele". Regina Célia, co-fundadora do Instituto Maria da Penha, observa que as mulheres demoram a buscar ajuda por temer pela segurança de seus entes queridos.

Dados alarmantes e necessidade de mudança cultural

Segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres, muitas vítimas levam em média cinco anos para denunciar os agressores pela primeira vez. Risomário Silva, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), afirma que a violência atravessa todas as classes sociais e destaca a importância de mudanças culturais profundas: "Não muda da noite para o dia. A gente precisa educar toda a nossa sociedade com ações contínuas, coordenadas e que possam ser mensuradas".

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Estudos recentes têm utilizado inteligência artificial para analisar dados de mortes de mulheres, ajudando a diferenciar feminicídios de outros homicídios com quase 90% de precisão. Para as mulheres que conseguem romper o ciclo da violência, o desejo é simples: reconstruir uma vida de paz longe do medo, como expressou uma das acolhidas: "Quero viver uma vida de paz, tranquila, porque não é justo ficar na mão de homem nenhum".