A Corregedoria da Polícia Militar concluiu, nesta segunda-feira (25), o inquérito que investigou a participação de policiais militares em um esquema de segurança privada ilegal para os dirigentes da empresa de ônibus Transwolff, apontados como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). A Transwolff e a UPBus foram alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo, sob suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento à facção criminosa.
Indiciados e acusações
Segundo as investigações, os agentes integravam uma estrutura de proteção armada que beneficiava Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e Cícero de Oliveira, o Té. Eles foram classificados como operadores de lavagem de dinheiro para o PCC pelo Ministério Público. Ao todo, foram indiciados pela Corregedoria o capitão Alexandre Paulino Vieira, o sargento Nereu Aparecido Alves, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário e o tenente-coronel José Henrique Martins Flores. Também foi solicitada a manutenção da prisão preventiva deles.
Procurada, a defesa do capitão Alexandre afirmou que ele é inocente, além de ser "uma pessoa íntegra e profissional exemplar, não tendo relação alguma com qualquer prática criminosa". Ainda afirmou que "as investigações têm se estendido por tempo exagerado, sem fundamentação legal, mantendo a custódia por tempo indeterminado". A defesa dos demais indiciados não foi localizada até a última atualização da reportagem.
Relação com ex-presidente da Câmara
A investigação ainda encontrou indícios de relação financeira entre o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil) e a Transwolff. Interceptações telefônicas mostraram o sargento Nereu justificando ao empresário Té um atraso na escolta por estar, em 18 de agosto de 2023, na inauguração de uma creche municipal ao lado do vereador, a quem se referia como “chefe”. O relatório final detalhou a existência de um núcleo gestor formado por oficiais da PM que administrava os serviços e ocultava os ganhos financeiros.
O capitão Alexandre é apontado como o responsável por coordenar as escalas, definir pagamentos e recrutar outros agentes, utilizando uma empresa de consultoria em nome de sua mãe para emitir notas fiscais fraudulentas à Transwolff. O capitão atuava na assessoria militar da Câmara, foi ajudante de ordens de Milton Leite e mantinha estreitas ligações com o vereador desde 2014.
Além disso, o tenente-coronel José Henrique também foi indiciado por utilizar empresas de fachada, registradas em nome de laranjas, para prestar serviços contínuos de portaria e escolta armada à transportadora. A Corregedoria identificou que a construtora Neumax, da qual Milton Leite é sócio, funcionaria como o elo financeiro do esquema, recebendo R$ 812 mil mensais da Transwolff pelo aluguel de imóveis na Zona Sul. O valor estimado é quase três vezes acima da média de mercado.
Dinheiro vivo e cegueira deliberada
As quebras de sigilo revelaram trocas de mensagens em que o sargento Nereu gerenciava o pagamento das diárias aos policiais envolvidos na escolta e cobrava o repasse de valores. Durante a operação, realizada em fevereiro, os investigadores apreenderam cerca de R$ 1 milhão em dinheiro vivo na casa do sargento Nereu. Em depoimento, policiais subordinados relataram que aceitaram o trabalho por acreditarem na licitude do serviço, uma vez que o convite partira de um capitão e da Transwolff, que possuía contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo. Porém, segundo a Corregedoria, a segurança privada foi mantida mesmo após a ampla divulgação de operações policiais contra a diretoria da empresa, caracterizando uma conduta de “cegueira deliberada” por parte dos investigados.
Operação Fim da Linha
A Transwolff — com outra empresa de ônibus, a UPBus — foi alvo da Operação Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo MP-SP por suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento ao PCC. As investigações apontam que o dinheiro usado para aumentar o capital da Transwolff poderia ter origem ilícita — ou seja, os recursos seriam provenientes de atividades do PCC. O esquema envolveria uso de “laranjas” e “CNPJs fantasmas”, facilidades de empresas de fachada para ocultar as verdadeiras origens dos valores, algo típico de lavagem de dinheiro. Em função dessas suspeitas, a Prefeitura de São Paulo abriu processo para rescindir os contratos da Transwolff e da UPBus em dezembro de 2024. A defesa da Transwolff, porém, nega qualquer vínculo com o crime organizado — afirma não haver “comprovação de qualquer relação com organizações criminosas ou de atividades ilícitas” e diz que vai contestar a decisão na Justiça.



