Dor que o tempo não apaga: mães de vítimas de feminicídio no RN carregam luto eterno
Enquanto o tempo passa e a sociedade gradualmente esquece os detalhes dos crimes, as mães das vítimas de feminicídio permanecem presas em um ciclo interminável de dor, saudade e revolta. A violência que tira a vida das mulheres deixa marcas profundas e permanentes nas famílias sobreviventes, transformando o luto em uma companhia constante que desafia qualquer noção de superação.
"Uma mãe amputada": o relato de Valéria Felizardo
A professora Valéria Felizardo descreve sua experiência com uma metáfora poderosa: "Uma mãe que perde um filho é uma mãe amputada. Eu carrego aqui no meu ombro, eu e todas as mães, uma mochila invisível do luto, que é muito pesado". Sua filha, Márcia Anália Felizardo da Silva, foi brutalmente assassinada a facadas aos 23 anos em abril de 2024, na casa onde morava no bairro Santa Tereza, em Parnamirim, região metropolitana de Natal.
O autor do crime foi o próprio marido da vítima, Josué Vianna, com quem Anália mantinha um relacionamento de sete anos. Apesar da condenação de 16 anos de detenção após confissão, Valéria encontrou a filha morta e afirma que nenhuma sentença judicial pode aliviar sua dor. "Ele está atualmente condenado a 16 anos, mas a minha filha está condenada à pena de morte. E eu, a mãe de Anália, minha única filha, estou condenada à prisão perpétua sem nunca ter cometido um delito", declara com emoção contida.
Uma década de ausência: a história de Anna Lívia
Em dezembro de 2026 completará uma década desde que Anna Lívia Sales de Macedo foi assassinada a facadas enquanto amamentava seu filho de apenas seis meses em São Gonçalo do Amarante, também na região metropolitana de Natal. Sua mãe, a pedagoga Sheila Sales de 47 anos, compara o processo de luto a uma "caverna escura" e a uma montanha-russa emocional, com dias alternados de relativa calma e profunda angústia.
"A gente é obrigada a aprender a caminhar novamente. Para mim, ainda parece que foi ontem. Parece que o tempo congelou", relata Sheila, que precisou encontrar forças para sustentar seu neto e outro filho que, na época do crime, tinha apenas 8 anos e era apegado tanto à irmã quanto ao criminoso.
Felipe Cunha Pinto, autor do feminicídio, foi condenado a 25 anos de prisão, mas já responde em liberdade, enquanto a família da vítima vive sob medidas protetivas. O filho de Anna Lívia ainda não conhece a história completa da família, criando uma ansiedade constante sobre como lidará com essa revelação no futuro.
Justiça que não traz paz: o caso de Zaira Cruz
Durante quase sete anos, a autônoma Ozanete Dantas acreditou que a condenação do assassino de sua filha traria algum alívio para sua dor. Zaira Cruz, estudante universitária de 22 anos, foi morta durante o carnaval de Caicó em 2019. O policial militar Pedro Inácio Araújo de Maria foi condenado a 20 anos de prisão em dezembro de 2025 e atualmente recorre da sentença, mas a dor materna persiste inalterada.
"Eu fico sem entender por que com ela. Porque ela só fazia o bem. A saudade é tão grande, maltrata tanto o coração da gente. O coração fica dilacerado", desabafa Ozanete, que sofre duplamente ao testemunhar também o sofrimento da irmã de Zaira. "A vida não anda. Eu achei que depois de tudo (processo) eu ficaria bem, mas tem dias que não tem como não chorar".
Aumento alarmante de feminicídios no Rio Grande do Norte
Os dois primeiros meses de 2026 registraram um aumento preocupante de casos de feminicídio no Rio Grande do Norte. Dados da Secretaria de Segurança Pública do estado revelam que ocorreram oito assassinatos de mulheres por "razões da condição de sexo feminino" entre janeiro e fevereiro, representando um crescimento de 60% em comparação com o mesmo período de 2025, que teve cinco crimes desse tipo registrados.
Em uma análise de cinco anos, de janeiro de 2021 a dezembro de 2025, o estado acumulou 100 feminicídios. Nesse período, apenas o primeiro bimestre de 2022 igualou os números de 2026, com oito casos registrados. Curiosamente, 2022 foi o ano com menor número de feminicídios na meia década analisada, com 18 casos, enquanto 2023 registrou 24 crimes do tipo, e 2024 e 2025 tiveram 19 casos cada.
Esses números frios contrastam dramaticamente com as histórias humanas por trás de cada estatística, lembrando que cada caso representa uma vida interrompida, uma família despedaçada e um luto que se recusa a terminar, mesmo quando a justiça formal parece ter sido feita.



