Dois jovens moradores do Morro da Coroa, em Santa Teresa, na região central do Rio de Janeiro, denunciam terem sido expostos publicamente após uma abordagem policial ocorrida no bairro da Lapa. De acordo com as famílias, as fotografias tiradas por agentes do programa Segurança Presente começaram a circular em grupos de WhatsApp do bairro, acompanhadas de acusações de envolvimento em assaltos na região.
Famílias denunciam racismo e violação de direitos
As mães dos rapazes, que preferiram não se identificar, afirmam que os jovens são inocentes e que a situação configura um ato de racismo. “Negro, de bicicleta, na Lapa, morador de favela”, resumiu uma das mães. “Não havia nada com ele”, disse outra. Segundo elas, os dois jovens, um de 16 anos e outro de 19, voltavam para casa no dia 29 de abril, após andar de bicicleta pelo Aterro do Flamengo, quando foram abordados por agentes do Segurança Presente na Avenida Mem de Sá, na Lapa.
Revista pessoal não encontrou irregularidades
As famílias afirmam que os rapazes foram revistados e nada de irregular foi encontrado. Ainda assim, os policiais teriam fotografado os rostos dos dois durante a ação. Dias depois, as imagens começaram a circular em grupos de mensagens de moradores de Santa Teresa, associando os jovens a roubos ocorridos na região.
Comentários racistas e questionamentos nos grupos
Nos prints obtidos pelas famílias, há mensagens que sugerem que os jovens seriam suspeitos de crimes e comentários considerados racistas. Em uma das mensagens, um participante escreve: “A cara dos bonitos aí”. Outro afirma que os jovens não têm “cara de coroinha de igreja” e sugere que moradores fiquem atentos às imagens. Nem todos concordaram com a exposição. Alguns integrantes dos grupos questionaram se havia provas contra os rapazes e alertaram para o risco de injustiça e violência.
Mães descobriram circulação de fotos dias depois
As mães dizem que só descobriram a circulação das fotos dias depois, por meio de terceiros. Desde então, segundo elas, os jovens mudaram a rotina e passaram a viver com medo.
Defensoria Pública e investigação
A Defensoria Pública acompanha o caso e afirma que a associação dos jovens a crimes sem comprovação pode configurar violação de direitos. O órgão pretende oficiar a Polícia Militar para identificar quais agentes estavam de plantão no dia da abordagem e esclarecer se os protocolos de atuação foram cumpridos. “A gente avalia denúncia na esfera criminal e na civil, incluindo eventual pedido de indenização ao Estado”, afirmou a defensora pública Luciana Motta, coordenadora de Promoção da Equidade Racial e do Núcleo de Combate ao Racismo.
Delegacia de Crimes Raciais investiga
O caso é investigado pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). A Secretaria de Governo, responsável pela operação Segurança Presente, informou que abriu uma apuração interna e reforçou que o registro fotográfico não faz parte do procedimento padrão das equipes. A pasta afirmou ainda que, caso seja identificado compartilhamento indevido de imagens por agentes da operação, serão adotadas as medidas administrativas cabíveis.



