Jardim comunitário em MG homenageia jovem vítima de feminicídio com memória e luta
Jardim em MG homenageia vítima de feminicídio com memória

Jardim da Mary: memória e luta contra feminicídio em comunidade rural de MG

Na comunidade rural do Barro Preto, em Boa Esperança, Minas Gerais, o silêncio bucólico do campo esconde uma dor profunda que ainda ressoa na Casa Amarela, residência da família Faria. Dois anos após um trágico feminicídio que abalou a cidade, o que floresce no quintal da casa vai além de um simples jardim: é um símbolo de memória, resistência e uma luta incansável por justiça.

O crime que chocou a região

Mariene Aparecida Faria tinha apenas 24 anos quando foi brutalmente assassinada pelo então namorado, Luiz Felipe Silva, em fevereiro de 2024, durante um domingo de carnaval. Segundo relatos familiares, naquele dia fatídico, ela havia decidido encerrar o relacionamento, uma decisão que não foi aceita pelo parceiro. A jovem foi morta dentro de um carro, vítima de 27 facadas. O acusado foi preso, mas o processo judicial ainda aguarda julgamento, deixando a família em um limbo de angústia.

Agmon Leopoldino Faria, pai de Mariene, expressa sua dor e frustração: "Perdoar eu não perdoo, só Deus para perdoar. Eu espero que a justiça seja feita. As leis são muito fracas". A saudade se manifesta em pequenos detalhes do cotidiano, como a orquídea que enfeita a casa, último presente de Dia das Mães dado por Mariene à mãe. Rosilene dos Santos Neves Faria, mãe da vítima, desabafa: "É uma dor que, por mais que a gente tente, não consegue explicar o tamanho desse vazio".

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Nascimento do Jardim da Mary

Em meio ao luto devastador, a família Faria encontrou força para transformar a dor em ação positiva. Assim, há pouco mais de um ano, nasceu o Jardim da Mary, um espaço comunitário que homenageia a vida de Mariene. As primeiras flores foram doadas por vizinhos solidários, e logo o movimento cresceu, atraindo moradores que nem sequer conheciam a jovem pessoalmente.

O jardim rapidamente ganhou as redes sociais, tornando-se um símbolo local de combate à violência contra a mulher. Natália Heloísa Almeida, prima de Mariene, explica: "A gente posta por todas, não só por ela. Quando vejo algum caso, já compartilho, porque isso tem que acabar". Cultivado por trabalhadores rurais que encontraram na terra uma forma de resistir, o local recebe visitas frequentes de borboletas, interpretadas pela família como sinais da presença espiritual de Mariene.

Uma vida breve, mas intensa

Para a família, Mariene não é apenas mais uma estatística de feminicídio. Ela era uma amiga dedicada, irmã carinhosa e filha querida, cuja vida, embora breve, foi marcada por afeto e intensidade, comparável a um jardim colorido e vibrante. A luta agora é garantir que sua morte não seja em vão, honrando seu legado e promovendo conscientização.

Rosilene, emocionada, compartilha um sonho que teve com a filha: "Vou honrar o nome dela, como ela me pediu em sonho. E vou carregar a frase que ela dizia: que a minha vida sirva para salvar muitas outras vidas". O Jardim da Mary, portanto, não é apenas um memorial, mas um chamado à ação, um espaço onde a comunidade se une para lembrar, refletir e lutar por um futuro sem violência.

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