A Polícia Civil de São Paulo investiga um esquema de fraude milionária envolvendo clínicas que oferecem terapias intensivas para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O prejuízo estimado às operadoras de planos de saúde chega a R$ 60 milhões. Segundo a investigação, as clínicas superfaturaram tratamentos, falsificaram registros e inflaram a carga horária de terapias não realizadas.
Diferenças alarmantes nos números de terapias
De acordo com o Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic), algumas clínicas cobraram até quase 100 vezes mais sessões do que as efetivamente prestadas. Em uma unidade, auditorias revelaram que 66% dos pacientes realizavam mais de 80 horas mensais de terapia, enquanto a média nacional para esse tipo de tratamento é inferior a 3%. Em um caso emblemático, um plano de saúde contatou os pais de um menino de seis anos, cuja clínica informava 416 horas mensais de atendimento. O pai, no entanto, afirmou que o filho frequentava a clínica apenas uma vez por semana, com sessões de 50 minutos, totalizando cerca de 16 horas mensais.
Relatos de pais e ex-funcionários
Famílias relatam pressão para assinar documentos falsos. Uma mãe, que preferiu não se identificar, disse que em duas clínicas era obrigada a assinar papéis atestando três sessões em um único dia, quando apenas uma ocorria. “Eles dizem que, se for apenas uma sessão, o convênio paga pouco e não compensa manter o profissional. Aproveitam-se da fragilidade dos pais, que só querem o tratamento dos filhos”, afirmou. Ex-funcionários de outra unidade contaram à polícia que usavam logins e senhas de aplicativos dos planos para registrar presença como se fossem os pacientes. Há ainda tentativas de burlar sistemas de reconhecimento facial com fotos de crianças tiradas na clínica.
Clínicas em diferentes cidades
Casos semelhantes foram identificados em Mogi das Cruzes, onde registros indicavam que um menino de oito anos teria recebido 200 horas de terapia em um mês. A mãe relatou que o filho frequentava a clínica duas vezes por semana, com sessões de 40 minutos. Em outra unidade, uma psicóloga registrou 706 horas de atendimento em um único mês, incluindo 56 horas em um dia. As defesas das clínicas negam irregularidades, alegando que as terapias são auditáveis e que há perseguição por parte das operadoras.
Possíveis crimes e impacto
Os investigados podem responder por estelionato, organização criminosa, lavagem de dinheiro e crime contra a saúde pública. “As intervenções terapêuticas são fundamentais. Uma fraude envolvendo crianças, impedindo que atinjam seu potencial, é particularmente cruel”, afirmou Cassio Ide Alves, diretor de Riscos e Fraudes da Associação de Planos de Saúde. A defesa do Espaço Singular, uma das clínicas citadas, afirma que os sócios jamais compactuaram com práticas ilegais.



