Pesquisa inédita revela rejeição maciça a operações policiais em favelas do Rio
Três em cada quatro moradores da Maré, Rocinha, Complexo do Alemão e Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, rejeitam as operações policiais realizadas em seus territórios, segundo pesquisa inédita divulgada nesta quarta-feira (20) por seis organizações de favela. O levantamento ouviu 4.080 pessoas presencialmente e aponta que a maioria considera que as ações não melhoram a segurança das famílias e são marcadas por excessos e ilegalidades.
De acordo com o estudo "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?", 73% dos entrevistados disseram discordar das operações policiais em suas comunidades, enquanto 25% afirmaram concordar. Outros 2% não responderam. A rejeição aumenta quando se avalia a forma como as operações são conduzidas atualmente: 92% desaprovam o modelo atual, sendo que 68% afirmaram que as operações "precisam ser realizadas de outra forma" e 24% disseram que "não deveriam ser realizadas operações policiais em favelas".
Pesquisa ouviu moradores diretamente afetados
A pesquisa foi conduzida pelas organizações Redes da Maré, Fala Roça, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Frente Penha e A Rocinha Resiste, com apoio de instituições acadêmicas e organizações ligadas à segurança pública. As entrevistas ocorreram entre 13 e 31 de janeiro deste ano nos quatro territórios, que concentram parte significativa das operações policiais no Rio e somam cerca de 21% da população favelada da cidade.
O levantamento surgiu após a operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, que terminou com 122 mortos, a mais letal do Brasil. Na época, pesquisa Datafolha por telefone com moradores da capital e região metropolitana apontou que 57% consideravam a operação bem-sucedida, o que gerou incômodo entre organizações de favela. "A gente viu uma narrativa muito homogênea de aprovação, mas sem ouvir quem vive essa realidade", afirma Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e coordenadora da pesquisa.
O trabalho de campo foi realizado por pesquisadores moradores das próprias favelas. Antes da etapa quantitativa, oito grupos focais ajudaram a formular as perguntas, reduzindo vieses. "Queríamos entender como as pessoas percebiam essas operações antes de formular as perguntas", diz Eliana.
Medo da polícia supera medo de grupos armados
Os dados mostram forte percepção de violência estatal: 91% dos entrevistados afirmaram que a polícia comete excessos e ilegalidades durante as ações, percepção compartilhada por 85% dos moradores favoráveis às operações. A rejeição à violência é ampla: apenas 3% concordaram que "a polícia precisa matar"; 41% disseram que "nunca está certo matar"; e 54% afirmaram que mortes devem ser evitadas. Excessos policiais são inaceitáveis para 90% dos entrevistados, incluindo 74% dos que apoiam as operações.
Além disso, 95% avaliam que as operações não aumentam a segurança das famílias; apenas 4% percebem melhora. Cerca de 93% já vivenciaram operações diretamente ou têm familiares afetados, com relatos de restrição de circulação, invasão de domicílios, fechamento de escolas, tiroteios e balas perdidas.
Um dado impressionante: 78% dos moradores sentem medo da polícia durante as operações, índice superior ao medo de grupos armados (41%). Mesmo entre os que aprovam as operações, 59% temem a polícia, ante 53% que temem criminosos. "A gente vive entre duas violências", resumiu um participante dos grupos focais. Para Eliana, isso revela uma contradição: "O Estado diz que atua para proteger, mas as pessoas relatam medo da presença policial."
Jovens e pessoas pretas concentram maior rejeição
A discordância é maior entre jovens de 18 a 29 anos (79%) e pessoas pretas (81%). A pesquisa também aponta percepção majoritária de racismo: 61% acreditam que há racismo no planejamento e execução das operações, e 13% responderam "às vezes". Para os organizadores, isso reflete a maior exposição desses grupos à violência policial. "Existe uma representação estereotipada do jovem negro da favela como suspeito permanente", afirma Eliana.
Quando perguntados se operações como a do Alemão e Penha (122 mortos) deveriam se repetir, 85% disseram que não; 7% responderam "às vezes" e 7% afirmaram que sim. Os pesquisadores ressaltam que os resultados não indicam apoio a grupos armados. "O morador não coaduna com a atividade ilícita. A pesquisa mostra a diferença entre o morador e as redes criminosas", diz a coordenadora.
A divulgação ocorre em meio ao debate eleitoral no estado, com setores defendendo o endurecimento das operações. Os organizadores esperam pressionar por alternativas ao modelo de confronto armado. "Operação policial não pode ser a única forma de atuação da polícia na favela", conclui Eliana.



