Seis meses após megaoperação no Rio, moradores do Alemão e Penha ainda vivem sob o jugo do crime
Seis meses após megaoperação no Rio, moradores ainda reféns do crime

Seis meses após a megaoperação policial que sacudiu o Complexo do Alemão e a Penha, no Rio de Janeiro, a população dessas comunidades ainda vive sob o domínio do crime. O trajeto para uma escola no Alemão é marcado por barreiras improvisadas, como pneus empilhados e cancelas giratórias controladas por traficantes. Crianças precisam passar por homens armados para chegar às salas de aula, que ficam ao lado de depósitos de armas. Uma diretora, que falou sob anonimato, descreve a rotina de medo: "Estamos sob as regras deles".

Operação de outubro de 2025

Em 28 de outubro de 2025, o governo estadual, então liderado por Cláudio Castro (PL), realizou uma megaoperação para capturar criminosos e conter o avanço do Comando Vermelho (CV). O confronto resultou na morte de cinco policiais e 117 suspeitos, a maioria com ligações comprovadas com a facção. No entanto, passados seis meses, os mais de 280 mil moradores da região continuam silenciados pelo medo, sob o controle da facção.

Barricadas e extorsões persistem

Assim que os 2.500 policiais deixaram a área, a rotina voltou ao normal. Comerciantes relatam extorsões frequentes e a venda forçada de serviços básicos, como gás e internet, pelo CV. O programa Barricada Zero, lançado para remover as trincheiras do crime, nunca chegou ao Alemão ou à Penha. Segundo o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), a remoção de 14 mil toneladas de barricadas em doze municípios não incluiu essas comunidades, por risco de conflitos violentos.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Controle do crime sobre serviços e mobilidade

O CV também controla a entrada de prestadores de serviço. Moradores não conseguem usar aplicativos de transporte ou receber entregas em casa. Dos 100 mandados de prisão da operação, apenas 20 foram cumpridos, e o líder Edgar Alves de Andrade, o Doca, continua foragido. O secretário de Segurança, Victor Santos, admite que as principais lideranças da facção permanecem na região.

Impacto na educação e saúde

Escolas operam sob constante ameaça. Uma diretora na Penha conta que, ao ouvir tiros, coloca em prática um protocolo elaborado com a Cruz Vermelha: as crianças se agacham e correm para salas com paredes reforçadas, enquanto a TV é ligada no volume máximo para abafar o barulho. Na saúde, a coordenadora Janaína Balmant relata que a violência causa crises de ansiedade e depressão entre os moradores.

Falta de ações estruturantes

Especialistas apontam que grandes operações, por si só, não resolvem o problema. José Vicente da Silva, ex-secretário nacional de Segurança Pública, defende a presença permanente do Estado, como nas extintas UPPs. O governo estadual ainda não apresentou um plano efetivo para retomar os territórios, e a população segue à deriva, em meio a tiroteios frequentes e medo constante.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar