Dores do Rio Preto, no ES, completa quase 4 anos sem homicídios
Cidade do ES sem homicídios há quase 4 anos

Dores do Rio Preto: quase quatro anos de paz em meio às montanhas do Caparaó

No coração do Sul do Espírito Santo, cercada pelas imponentes montanhas do Caparaó, a pequena Dores do Rio Preto vive um cenário raro no Brasil contemporâneo. Com aproximadamente 6,5 mil habitantes, o município está há quase quatro anos sem registrar um único homicídio, um marco que chama atenção em um país onde a violência letal ainda é um desafio constante.

O último episódio trágico e a virada na segurança

Segundo dados oficiais do painel de monitoramento da Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo, o último assassinato na cidade ocorreu em 15 de maio de 2022. Na ocasião, uma briga generalizada terminou com um homem de 38 anos esfaqueado, vítima fatal de um adolescente de 16 anos que também ficou ferido. Desde então, nenhuma morte violenta foi contabilizada nas estatísticas municipais, criando um período prolongado de paz que já se aproxima dos quatro anos.

Fatores que explicam a tranquilidade

O prefeito Tiaguinho Pessotti, em seu primeiro mandato, atribui esse resultado positivo a uma combinação de fatores. "Eu atribuo essa conquista a um bom diálogo com a polícia mas, acima de tudo, ao povo daqui", afirma o gestor. "Nosso povo é muito hospitaleiro, acolhedor. Isso se reflete nesse resultado que alcançamos aqui."

Entre as medidas concretas implementadas, destaca-se a instalação de uma companhia da Polícia Militar no distrito de Pedra Menina, um dos principais polos turísticos da região, há aproximadamente quatro meses. Essa presença reforçada das forças de segurança tem sido apontada como um elemento crucial para a manutenção da ordem pública.

Comunidade ativa e tecnologia a serviço da segurança

Além do policiamento tradicional, os moradores de Pedra Menina desenvolveram uma iniciativa comunitária inovadora: um grupo de WhatsApp dedicado à segurança local. Nesse espaço digital, a população compartilha informações sobre:

  • Movimentações suspeitas na região
  • Situações de risco identificadas
  • Ocorrências do dia a dia que merecem atenção

Esse mecanismo de comunicação ágil tem facilitado o acionamento rápido da polícia quando necessário, criando uma rede de proteção colaborativa entre cidadãos e autoridades.

Perfil da cidade e sensação de segurança

Bruno Protazio, estudante de 21 anos que mora no distrito de Pedra Menina desde a infância, descreve o ambiente local com entusiasmo. "Aqui a gente anda sem medo nenhum. Todo mundo se conhece", relata. "A maioria das pessoas é família ou amigo. É um lugar muito acolhedor. Quem vem visitar quase sempre quer voltar."

Mesmo com o crescimento significativo do turismo nos últimos 15 anos, a sensação de segurança permanece intacta. "Mesmo com turistas vindo de fora, continua tudo muito tranquilo", complementa Bruno. "E agora ainda aumentaram o policiamento na região, o que deixou todo mundo mais seguro."

Características demográficas e urbanas

Dores do Rio Preto ocupa a quarta posição no ranking de menor população do Espírito Santo, com 6.596 habitantes segundo o último Censo. Localizada a cerca de 250 quilômetros da capital Vitória, a cidade faz divisa com Minas Gerais e compartilha com o estado vizinho o Parque Nacional do Caparaó.

A urbanização é mínima: apenas 1,24 km² do território é área urbanizada, o equivalente a 0,78% do município. Em comparação, Vitória tem cerca de 47,5% do território urbanizado, enquanto São Paulo soma aproximadamente 60% de área urbana. Essa característica rural contribui para a atmosfera de interior que tanto é valorizada pelos moradores.

Economia baseada no café especial e no ecoturismo

A vida econômica da cidade gira em torno de duas atividades principais:

  1. Cafeicultura de montanha: A produção de cafés especiais do Caparaó ganhou destaque nacional, com um produtor local tendo seu café eleito o melhor do Brasil em 2017.
  2. Turismo ecológico: A proximidade com o Parque Nacional do Caparaó movimenta pousadas, restaurantes e serviços ligados ao ecoturismo, especialmente durante os meses mais frios.

Bruno Protazio acompanhou essa transformação de perto: "Quando eu era criança, muitas estradas ainda eram de chão. O turismo foi crescendo de uns 15 anos pra cá. Eu vi essa evolução toda acontecer." Sua família tem ligação histórica com o desenvolvimento regional, com seu avô participando da construção da estrada de acesso ao parque.

Projetos futuros e integração turística

O município integra atualmente um ambicioso projeto turístico em desenvolvimento: a Travessia dos 7 Cumes. Com aproximadamente 60 km de trilhas, o percurso promete oferecer experiências que incluem hospedagens, cafeterias, restaurantes, piscinas naturais e cachoeiras ao longo do trajeto, posicionando a região na rota internacional do turismo de aventura.

Contexto histórico e formação territorial

O povoamento da região começou no século XIX, com a abertura de caminhos que ligavam Minas Gerais ao Espírito Santo. Até 1863, o território pertencia a Minas, quando o Rio Preto passou a ser definido como divisa entre os estados. O distrito foi criado em 1896, ganhando impulso com a chegada da estrada de ferro, mas a emancipação só ocorreu em 1963, quando o município adotou o nome atual em referência à padroeira Nossa Senhora das Dores e ao rio que marca a divisa interestadual.

Outros crimes ainda presentes

Apesar da ausência de homicídios, a cidade ainda registra outras modalidades de criminalidade, principalmente crimes contra o patrimônio. Entre 2022 e 2025, o painel da Sesp-ES aponta:

  • 173 registros de estelionato e fraude
  • 36 ocorrências de furtos em residências e condomínios
  • 10 casos de furtos em estabelecimentos comerciais
  • 5 registros de roubos em residências

Mesmo assim, Dores do Rio Preto aparece entre os municípios capixabas com menor número de crimes patrimoniais nos últimos anos, somando 354 registros entre 2022 e 2025, ficando abaixo de diversas cidades de porte semelhante e médio no Espírito Santo.

O caso de Dores do Rio Preto serve como um exemplo inspirador de como características comunitárias, gestão pública atenta e investimentos em segurança podem criar ambientes de convivência pacífica, mesmo em um contexto nacional desafiador. A combinação entre tradição interiorana e iniciativas modernas de segurança parece estar escrevendo uma história positiva para essa pequena cidade capixaba.